Descrição
Neste livro, o autor Roque Bispo Conceição (Roque de Boboso), longe de ser um mero expectador acrítico, que desliza na correnteza do achismo ditado pela mídia e pela moda, traz de forma contundente e orgânica suas impressões e análises da política brasileira, sobretudo no que diz respeito ao STF e à participação essencial do seu ministro Alexandre de Moraes nos episódios envolvendo o então presidente da república, Jair Bolsonaro, que, juntamente com seus pares, tentou tomar de sequestro a democracia
brasileira ao intentar, incitar e arquitetar um golpe militar após derrota devidamente imposta nas urnas, sem, no entanto, deixar demonstrar seu posicionamento em relação ao presidente eleito Luís Inácio da Silva, o Lula.
Após ofertar-nos os “Frutos Amargos” e os “Cupins da democracia”, suas publicações anteriores, o autor, em ‘Os poderes da República’, já nas suas primeiras palavras, nos brinda com uma reflexão a respeito do caráter formal e/ou orgânico e seu imbricamento nas instituições de poder no Brasil. Ao mesmo tempo em que retoma suas críticas ácidas às instituições políticas brasileiras, Roque de Boboso demonstra sua coragem e honestidade com seu público ao reconhecer o papel importante do STF, na figura do ministro Alexandre de Moraes, em diversos episódios durante e após as eleições, quando ocorreram os atos antidemocráticos orquestrados por Jair Bolsonaro e sua turba, bem como salienta e parabeniza o presidente eleito Luís Inácio da Silva, alvos de suas críticas em outras publicações.
A despeito da linguagem eloquente e refinada, à guisa de suas observações, o autor nos remete, em suas crônicas, a um encontro entre amigos, no qual, as palavras aquecidas ao sabor da Caçutinga e/ou refrescadas pelas sensações provocadas pelo lúpulo, flutuam em direção àqueles que têm ouvidos de ouvir. Dessa forma, Roque de Bobozo açoita o modus operandi construído na suprema corte ao longo dos últimos trinta anos, como descreve muito bem em seu texto “O que fazer?”, em que prevalece a troca mútua de favores, sangrando os cofres públicos e perpetuando esses devoradores da democracia no poder, se utilizando do próprio instrumento democrático.
A perspicácia das análises impressas ao longo desse manuscrito retrata a indignação do autor diante das mazelas causadas, não apenas, pelo último presidente e sua horda, mas, também, aciona seu olhar em direção ao atual governante da nação e seus pares. De mesma forma, traz à tona os meandros políticos
e institucionais que corroboram e alicerçam a ilicitude que corrói todo o sistema, lugar onde se estabelece as prevaricações em nome da governabilidade.
Longe de se tratar de uma narrativa pragmática, apaixonada ou revanchista, percebe-se ao longo da leitura a preocupação do autor em compartilhar, de forma clara e coerente, com seus leitores a sua preocupação e, por que não dizer, deixar um alerta para que futuramente eventos como os presenciados na última eleição não tornem a assombrar a democracia.
Apontando a dicotomia política e as fakes News como motivadores da disputa acirrada entre os dois principais candidatos à eleição de 2022, o autor exibe, em seu texto “Erros Cruciais”, seu caráter democrático ao afirmar que embora não tenha votado no presidente eleito em 2018, torceu para que governo desse certo. Do mesmo modo, afirma que apesar de não coadunar com os métodos do atual governo, despejou nas urnas sua confiança em nome da democracia.
Os poderes da República é um livro constituído pela voz de um brasileiro, professor, pai, homem preto e amante da democracia que se ergue para derramar suas análises talhadas ao longo dos seus 80 anos e se insurge diante dos desmandos, dos conchavos políticos e institucionais perpetrados ao longo da democracia brasileira e tão claramente revelados nos dois quadriênios anteriores. Esse é um trabalho que merece uma análise profunda dos leitores que certamente serão exortados a uma reflexão a respeito dos meandros políticos brasileiros e seus personagens.
O autor nos traz em todos os seus textos um mergulho – ainda que en passant – por questões de fórum pessoal que se interpõem na política: rusgas, picuinhas e defesas de interesses próprios que valem a pena ver ou relembrar, uma vez que provavelmente voltarão à superfície em capítulos próximos da democracia brasileira. Roque de Boboso nos convoca à insurgência minimamente reflexiva, nos empresta a sabedoria de sua ancestralidade para cingirmos a democracia e afastarmos os aproveitadores nefastos que a rondam.
Gerson Prado






Avaliações
Não há avaliações ainda.