“Instantes” de Jamal Wallace

“Instantes” de Jamal Wallace

R$ 65,00

Apresentando Instantes

por, Osmundo Pinho

“Só a imaginação me dá conta do que pode ser”.
André Breton, “Manifesto do Surrealismo”, 1924

Em 19 contos curtos escritos em primeira pessoa Jamal Wallace abre uma porta para o desconhecido familiar, emoção da presença do estranho, signo de uma vida interior abundante.

Quem é o narrador que diz: “Há muito tempo, venho fugindo, acho que desde a infância. Acho também que muito do que me tornei hoje deve-se a esta fuga”. Uma fuga onírica para um tempo dentro do  tempo, um instante, um momento de dissolução onde a verdadeira natureza mágica das coisas, guarda uma entrada secreta. Uma porta. Muitas portas para o desconhecido familiar, emoção da presença do estranho.

A abordagem experiencial de um autor que sonha com livros faz deste livro, muito especial,  ompanheiros de outras obras fabulares, e como especificamente situado, no interior do círculo mágico do pensamento mítico, um mapa para a realidade fantástica que se esconde no cotidiano. “Havia  estado no céu… Descobri que fui salvo, não pelas minhas boas ações, mas tão somente porque nas bibliotecas já não havia mais leitores e eu era uma espécie de último discípulo desse espaço sagrado”.

Mágica do cotidiano e o estilo “proverbial” que Denise Carrascosa reconhece na literatura negra de um modo em geral e na literatura de Carolina Maria de Jesus em particular: “Que sei eu, que sei eu. A vida e a morte encerram mistérios que o homem desconhece”. Diz Carolina, em “O Escravo”. A literatura como mensagens de guerra e paz em meio as perturbações do inimigo colonial, literatura de sabedoria epigramática, ancestral, capaz de abrir uma porta para o território, lugar, ou não lugar entre “os perigos da rua” e “suas encruzilhadas feiticeiras”, diz Denise. Território do afro-futuro. Imemorial. Sempre presente. Nunca inteiramente passado.

Na narrativa em primeira pessoa de Wallace, há um mundo “concêntrico”, como diria Carolina. Um mundo subjetivo de uma virtualidade que se espraia em um inconsciente ancestral. Um mundo possível, uma cidade surreal porque “a alma” é “um lugar”. Uma abertura, “aletheia”, para a densidade visível da invisível “penumbra poética” de Wallace, um mundo de coisas magicas, noturnas. No cenário distópico da antinegritude, em meio a paisagem colonial Wallace, o mesmo narrador que se deixa levar pela vertigem do fantástico, habita um mundo de coisas noturnas, que só acontecem na “sombra da noite” coisas que nem todos podem ver. É neste mundo onírico, noturno, (in)visível que a verdade da cidade, e do próprio narrador, que busca a si, mesmo se desvela. E este mundo cabe inteiro em uma cidade.

A cidade mágica de Wallace, templo de um tempo mítico, é a conhecida Cachoeira, heroica vila remanescente as margens do Paraguassu. É Cachoeira, ou algo mais, algo alhures? Há uma “praça que se chama Aclamação”. Há uma ponte que serpenteia, há uma bruma fantástica que rege a  realização de um encanto, Cachoeira-Macondo, surreal, afro-real como diz o narrador. Na verdade, Cachoeira, cidade encantada, é este lugar “além-mundo”, “onde o mundo é mais poético, onde as palavras repousam para serem alcançadas”. Onde a poesia é fundamento do real.Heidegger em “A Origem da Obra de Arte” estabelece a poesia como origem de toda a arte e de toda a filosofia, de todaverdade e de toda ontologia. “A verdade, como a clareira e ocultação do ente, acontece na medida em que se poetiza. Toda arte, enquanto deixar acontecer da adveniência da verdade do ente como tal, é na sua essência, poesia”.

Em Cachoeira Renaissance no 8, o narrador (autor?) se volta sobre a própria matéria narrada e declara o vínculo existencial ente o lugar e seu além, Cachoeira, e sortilégio literário que a torna surreal.

*Continue essa leitura no livro…

Descrição

A publicação de instantes, do escritor e antropólogo visual Valdir Alves, inaugura a edição da Améfrica Literária, uma Coleção tecida para reunir os retalhos que fragmentam a unidade expansiva do território africano nas Américas traduzidas por autoras e autores da Neustra Améfrica.

O projeto editorial de Instantes nasceu durante as três primeiras edições do Quilombo Amefricano de Literaturas que aconteceu em Havana, Cartagena de Índias e Cachoeira, durante os meses de junho e julho de 2024.  Ressignificar antigas rotas da escravidão tem sido o desafio da Portuário Atelier Editorial. Neste caminho, a edição e difusão Coleção Tinta Preta (Prêmio Jorge Portugal/Aldir Blanc Bahia I, 2020) na Colômbia e em Cuba é parte do projeto de intercambio estabelecido entre Recôncavo e Caribe dirigido desde 2006.

Entendemos que as histórias de lutas, forças e sabedorias das distintas etnias africanas imprimiram nas Américas uma presença que cinge uma complexa escrita literária. Ler invisibilizados e silenciados ao largo de séculos nos faz produtores de singularidades e diversas formas de Literatura, notadamente não grafocêntrica.

Neste sentido, a Améfrica Literária é um território em que a transmodernidade e os des(a)fios de acesso ao livro e à leitura de contextos afrocentrados são dimensões originárias para impressão dessas páginas que seus olhos alcançam.

Nesses dezenove contos, Jamal, em nome de um autor negro, condessa o pacífico atlântico forjado no ser objeto de reflexão de sua própria realidade também espelhada na vida das muitas personagens costuradas nesse universo entre duas capas: o primeiro livro do escritor Valdir Alves.

 

Boa leitura !!!

João Vanderlei de Moraes Filho

 

 

 

 

Informação adicional

Peso 150 g
Dimensões 15 × 21 cm

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