A PERSISTÊNCIA DA GUERRA COLONIAL – CONTRATERRORISMO, “DEMOCRACIAS” E SOBERANIA NACIONAL – part. 2
De uma posição crítica forte e claramente analítica, evocando o vocabulário da geopolítica e dos estudos a cerca das questões coloniais, penso a persistência da lógica da guerra colonial nas políticas contemporâneas de contraterrorismo, mostrando como discursos de “defesa da democracia” operam como instrumentos de legitimação de intervenções externas e de erosão da soberania nacional em diversos estados do Sul Global. Argumento que o contraterrorismo funciona como uma tecnologia de poder neocolonial, reconfigurando hierarquias imperiais sob novas linguagens normativas. Seja o genocídio palestino em Gaza ou a guerra epistemológica.
Assim, contraterrorismo, colonialismo, soberania, democracia liberal, neocolonialismo e segurança se relacionam na arena internacional, vide o caso recente da tentativa de compra ou até mesmo anexação da Groelândia pelos EUA indo contra a Europa Ocidental inteira, antes aliados e parceiros comerciais, desfazendo o sentido de organizações como ONU – União da Nações Unidas – e OTAN – Aliança do Tratado do Atlântico Norte.
A chamada “guerra ao terror” é a continuidade da história colonial sob novas formas jurídicas, morais e tecnológicas. Sob o signo da democracia e da segurança global, práticas de exceção, militarização e tutela política reaparecem como instrumentos legítimos de governança internacional. Este texto indica e examina como o contraterrorismo reinscreve a guerra colonial no presente, transformando a soberania nacional em um conceito condicional, especialmente para Estados do Sul Global.Assim como foi possível observar no caso da invasão da Venezuela pelos EUA e a captura de seu chefe de estado Nicolas Maduro no dia 3 de janeiro deste ano, provocando uma clara ameaça regional à soberania da America Latina.
As reformulações possíveis do argumento colonial ainda mais sistêmico e incisivo erodindo as formas estabelecidas de soberania nacional, manifestam-se no contraterrorismo como justificativa e a guerra colonial permanente como método contínuo e multifacetado de desconstruções e questionamentos das democracias, na constituição de um regime de exceção e ausência de soberania no Sul Global. A dimensão da segurança nacional ante o enfrentamento dos grupos paramilitares extremistas provocam a expressão de resposta de democracias armadas em crises políticas e ameaças aos direitos humanos. Os casos empíricos a pensar na Nigéria, no Sahel, na Palestina ou no Afeganistão, etc. ao tomar em conta as reflexões de Mbembe, articulam-se em torno do pensamento anti-colonial fanoniano e as interrelações desdobras das conexões entre epistemologia, guerra e poder.
O aparato da segurança como tecnologia e recurso transforma a persistência da guerra colonial na subcondição do exercício da valência do estado ainda colonial e da forma do conhecimento assumido pela morte, pela violência e pelo poder. A guerra pelo saber e sua legitimação apresenta o contraterrorismo – ou seja, o terrorismo de estado como regime epistemológico. O contraterrorismo não é apenas um conjunto de operações militares, mas um modo de vida que produz categorias como terrorista, radical, insurgente, extremista e reorganiza o campo do político a partir de uma alienação identitária. Assim, como no colonialismo clássico, o domínio não se exerce apenas pela força, mas pela produção de saber sobre o inimigo.
Aqui, a segurança funciona como epistemologia, assim ela define o que é ameaça, quem pode falar, quem deve ser eliminado e quais vidas são sacrificáveis. Essa lógica retoma o que Mbembe chama de “necropolítica”, mas com uma dimensão adicional: a necropolítica epistêmica, em que certas formas de conhecimento local – religioso, comunitário, cosmológico, jurídico – são deslegitimadas como “irracionais” ou “radicais”. Nesse sentido, o contraterrorismo é uma guerra contra epistemologias não ocidentais de ordem e soberania. Como se vê nos conflitos entre judeus e palestinos ou entre ocidentais e povos indígenas e originários seja na América, na África ou na Ásia, sem esquecer o caso da Austrália e Nova Zelândia, onde as relações políticas de representação e direito e propriedade a Terra correspondem a tentarivas de mitigar os efeitos das guerras militares e da ocupação da Oceania.
Na Nigéria, o Boko Haram, no norte do país africano, se distingue das ordens de babalaôs que cultuam Ifá no sul do país, em território iorubá, com outras visões de mundo ligadas a sharia e a jihad islâmica, o que produz além uma guerra de dezenas de milhares de mortos, onde tem-se aí também, não uma guerra religiosa, mas sim uma guerra contra a inteligibilidade local, entre grupos e comunidades tradicionais localizados na franja da elite política e econômica do país e os que direcionam os rumos do Oeste africano. Na Nigéria, a guerra contra o Boko Haram foi enquadrada desde o início como parte da “guerra global ao terror”, o que justificou a militarização massiva do Nordeste, a dependência de inteligência ocidental dos EUA, Reino Unido e França agindo em parceria com a inteligência nigeriana e atuando na suspensão de garantias civis, bem como diante do quadro de corrupção instalado no estado o que conduz à erosão de soberanias locais.
Assim, pode-se dizer que o ponto central do conflito, a formação de uma região autônoma no cruzamento das fronteiras da Nigéria com Chade e Camarões por parte dos manifestantes paramilitares em luta para seguir a sharia e sua visão do Islã, este conflito é uma tradução epistemológica do embate entre a cultura dominante no sul do país capitalizado pelos lucros do petróleo e da tecnologia enquanto na disputa entre a posição dos pastores nomades sejam cristãos ou mulçumanos que ocupam regiões de expansão desses grupos – como o Lakurawa – que atua para além do nordeste, no norte, na região do Califado Sokoto, avançando sobre a fronteira nigeriana do Malí, Níger alcançando ainda Burkina Faso também enquanto foco de tensões, em toda a aréa do Niger e Sahel como se viu recentemente no ataque dos EUA no dia 25 de dezembro de 2025.
Logo, o combate por parte do governo nigeriano, ao extremismo islâmico, ignora as economias morais locais, as cosmologias de autoridade, os conflitos fundiários, aspectos que são manifestações ainda das falhas estruturais de um Estado pós-colonial. Assim, a guerra não é apenas contra insurgentes, mas contra formas africanas de inteligibilidade política, exatamente o tipo de apagamento que, o sociólogo nigeriano, Akinsola Akiwowo denunciava, desde os anos 80, ao propor a indigenização da sociologia enraizada nas tradições culturais iorubás contra a colonização cognitiva pelo Ocidente, para quem só o pensamento ocidental conta como “explicação legítima”.
Alguns países da região do Sahel, ao enfrentar o problema da soberania nacional suspensa e marcada pela tutela militar permanente, nesse contexto, conformam a Aliança do Estados do Sahel, formada por Mali, Burkina Faso e Níger que se organizam em forma de governos militares e militarizados para operar o contraterrorismo enquanto regime de tutela, assim, a expulsão de missões e bases francesas, bem como o enfrentamento com drones norte-americanos e missões “internacionais”, configuram uma conjunção de Estados formalmente soberanos e operacionalmente subordinados ao poder militar em relações com Rússia e China, seja pela questão militar ou de exploração de recursos naturais. Aqui vemos claramente a soberania condicional, na qual o Estado só é reconhecido se aceitar o enquadramento securitário externo. A ruptura recente com a França não é apenas geopolítica, mas epistêmica, é uma recusa da moeda e da narrativa que transforma conflitos sociais em “ameaças globais”, removendo das populações o direito de nomear suas próprias guerras.
Na Palestina, Israel atua no plano do contraterrorismo como colonialismo de assentamento.Na Faixa de Gaza, o contraterrorismo não é exceção, é estrutura permanente. Israel exporta tecnologias, doutrinas e softwares de vigilância testados sobre corpos palestinos, convertendo a ocupação em laboratório global de segurança. Nesse sentido, a categoria “terrorista” funciona como apagamento da condição colonial, criminalização da resistência e legitimação da eliminação preventiva. Trata-se da forma mais acabada da guerra colonial contemporânea, em que o colonizado nunca pode deixar de ser ameaça – sua existência é já um risco.
Por outro lado, no Afeganistão já se apresenta outra face desta guerra epistêmica na qual constata-se o fracasso da tradução do Ocidente no Oriente Médio. O Afeganistão mostra o limite final da guerra colonial travestida de democracia combinando 20 anos de ocupação, bilhões investidos que derrocaram num colapso completo da “ordem” ocidental importada. O fracasso não é apenas militar, é reiteradamente epistemológico. Já que tentou-se impor um Estado, sem soberania, nem direitos, forjando uma democracia, como se fossem valores universais, ignorando sistemas locais de autoridade, justiça e mediação. Logo, o contraterrorismo fracassa porque não compreende o mundo que pretende governar exatamente como o colonialismo clássico.
De tal maneira que a guerra como destruição da pluralidade epistemológica é a tônica dos tempos atuais. A persistência da guerra colonial não está apenas na violência, mas na negação de que outros mundos sabem governar-se. Aqui, a contribuição do sociólogo nigeriano Akinsola Akiwowo é crucial, porque sem reconhecer epistemologias locais como produtoras legítimas de teoria social, toda política de segurança será guerra. O contraterrorismo é, portanto, uma guerra contra a pluralidade ontológica do mundo.
O contraterrorismo é uma forma armada da epistemologia dominante, ele mata porque não escuta, ocupa porque não compreende, governa porque nega a legitimidade de outros modos de ordenar o mundo. Assim, que o desenvolvimento de um corpus filosófico e sociológico, revela que a segurança baseada na eliminação não produz ordem, mas sua destruição prolongada. A persistência da guerra colonial, portanto, é a persistência de uma interdição do saber do outro, sustentando a incapacidade do sistema capitalista de reconhecer que a “paz” é relacional e não um exercício de força.
CAMILLO CÉSAR ALVARENGA [São Félix-Ba, 1988]
Caboclo amazônico-recôncavo guajajara-nagô, Sociólogo, músico, escritor. Doutorando e Mestre em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba. Especialista em Estudos Étnicos e Africanos pelo ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa). Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB
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