Livro de contos “instantes”, de Jamal Wallace, inaugura a Coleção Améfrica Literária
A publicação de Instantes, do escritor e antropólogo visual Valdir Alves — que assina como Jamal Wallace — marca a abertura oficial da Coleção Améfrica Literária, novo eixo editorial da Portuário Atelier Editorial. A coleção nasce como gesto político e estético: reunir, sob a metáfora dos “retalhos”, as fragmentações históricas impostas ao território africano nas Américas e reinscrevê-las como unidade expansiva na palavra literária de autoras e autores da Nuestra Améfrica.
O projeto editorial de Instantes foi gestado no contexto das três primeiras edições do Quilombo Amefricano de Literaturas, realizadas em Havana, Cartagena de Índias e na Cachoeira, entre junho e julho de 2024. A circulação do livro, portanto, não se limita ao mercado editorial: ela integra um programa de intercâmbio cultural estabelecido entre Recôncavo e Caribe desde 2006, voltado à ressignificação simbólica das antigas rotas da escravidão.
Nesse percurso, a difusão internacional da Coleção Tinta Preta — contemplada pelo Prêmio Jorge Portugal/Aldir Blanc Bahia I (2020) — em Cuba e na Colômbia já apontava para a consolidação de uma rede editorial afrocentrada. Instantes aprofunda essa estratégia, posicionando-se como obra inaugural de um catálogo comprometido com bibliodiversidade, circulação transnacional e centralidade epistêmica negra.
A cidade como ontologia poética
Composto por 19 contos curtos em primeira pessoa, Instantes inscreve-se no campo da narrativa experiencial. O narrador que confessa estar em fuga desde a infância não anuncia evasão, mas deslocamento interior — um mergulho no “tempo dentro do tempo”, no instante como dobra onde memória, imaginação e realidade se interpenetram.
Na leitura crítica de Osmundo Pinho, a epígrafe de André Breton — “Só a imaginação me dá conta do que pode ser” — oferece a chave interpretativa: a imaginação como método de conhecimento. O livro abre portas para o “desconhecido familiar”, instaurando uma atmosfera em que o cotidiano se reveste de dimensão mítica e surreal.
Essa dimensão dialoga com a tradição da literatura negra brasileira evocada por Denise Carrascosa ao analisar a escrita de Carolina Maria de Jesus: uma literatura proverbial, epigramática, capaz de condensar sabedoria ancestral em meio às perturbações do mundo colonial. Em Instantes, o humor, a solidão, o amor e a vertigem compõem uma cartografia subjetiva atravessada por um inconsciente ancestral que não se dissocia da experiência urbana contemporânea.
A cidade narrada é a própria Cachoeira — histórica vila às margens do Paraguaçu —, mas também algo além. Praça, ponte, bruma, encruzilhada: a cidade concreta converte-se em território afro-real, espaço encantado onde “a alma é um lugar”. Nesse cenário, a literatura opera como desvelamento. Evocando Martin Heidegger, pode-se dizer que a verdade da cidade acontece poeticamente; é na linguagem que o real se funda como clareira.
Escrita como gesto de amor e afirmação
A apresentação de Michele Mota Souza acrescenta uma camada decisiva à recepção do livro. Para ela, Instantes nasce de um gesto amoroso: escrever não para provar competência literária, mas para expressar a soma dos instantes vividos. Ao acionar seus muitos “eus”, Jamal Wallace suspende a preocupação com validação externa e produz uma estética-poética-existencial que convida o leitor à sensibilidade.
Essa perspectiva converge com o projeto da Améfrica Literária: publicar obras que enfrentem os desafios históricos de acesso ao livro e à leitura em contextos afrocentrados, reconhecendo também formas não grafocêntricas de produção de saber e memória. Ler aqueles que foram invisibilizados ao longo de séculos é, nesse sentido, produzir singularidades e expandir o próprio conceito de literatura.
Nos dezenove contos de Instantes, Jamal condensa o Pacífico Atlântico forjado na experiência negra nas Américas. A reflexão sobre si espelha-se nas múltiplas personagens costuradas nesse universo entre duas capas — o primeiro livro literário de Valdir Alves. A narrativa pessoal se articula a uma memória coletiva, transformando a cidade em metáfora ampliada de diáspora, resistência e reinvenção.
Com Instantes, a Portuário Atelier Editorial reafirma sua vocação: editar como quem constrói pontes. Entre Recôncavo e Caribe, entre memória e futuro, entre literatura e território.
Lançamento em Cachoeira
No próximo 20 de março, às 17h, acontecerá o lançamento de Instantes,
O encontro será no Bar Cantinho da Nega, na Praça do Cinema, em Cachoeira — território onde a obra encontra sua geografia afetiva e poética.
Como um livro que nasce do amor à vida em seus pormenores. Em narrativas que atravessam memória, sensibilidade e os muitos “eus” que nos constituem, Jamal Wallace constrói uma estética-poética-existencial que transforma o cotidiano em gesto literário. Entre emoção, humor e reflexão, a cidade de Cachoeira se torna palco e personagem dessas experiências.
A programação contará com:
• Bate-papo com o autor
• Leitura de contos pelo Projeto Contando Conto
• Lançamento e leituras com mediação do poeta e pesquisador Camillo Cesar Alvarenga
Será uma tarde de partilha, escuta e celebração da palavra viva.
20 de março
17h
Bar Cantinho da Nega – Praça do Cinema, Cachoeira
A Casa Amefricana da Poesia espera por você. Venha viver esses instantes conosco.

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