NotíciasAnajara Tavares: uma poesia que dos saraus, atravessou Salvador e chegou à Cartagena de Índias

Anajara Tavares: uma poesia que dos saraus, atravessou Salvador e chegou à Cartagena de Índias

Há poetas que chegam à literatura pela porta dos livros. Há outros que chegam pela voz, pelo corpo, pelo encontro. Anajara Tavares pertence a essa segunda linhagem. Sua poesia nasceu e se fortaleceu no movimento dos saraus, na cena literária negra de Salvador, na experiência periférica e na circulação entre diferentes territórios de escuta e criação. Hoje, depois de um percurso construído em coletâneas, recitais, festivais, encontros literários e no livro Unguento, a poeta soteropolitana amplia seu campo de circulação e inscreve sua produção em uma rede literária que ultrapassa as fronteiras brasileiras.

Natural de Salvador, Anajara Tavares é graduada em Fonoaudiologia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), mãe de Flor de Lis, escritora, poeta, compositora e integrante histórica do Sarau BemBlack. Sua trajetória literária começa a ganhar maior visibilidade a partir de 2016, quando passa a publicar e a participar de maneira mais sistemática dos circuitos de poesia da cidade. Os saraus negros de Salvador, como registra sua apresentação biográfica, foram decisivos para a formação da poeta que aparece em seus versos.

Essa origem é importante para compreender sua escrita. Anajara não parece construir uma poesia apartada da experiência social. Ao contrário: sua literatura se alimenta daquilo que acontece no corpo, na casa, no território, no terreiro, na maternidade, na memória e nos encontros. Sua poesia é profundamente marcada pela experiência de uma mulher negra em diáspora, mas não se limita ao testemunho. O que interessa em sua produção é justamente a transformação da experiência em linguagem.

Uma poeta formada pelo encontro

A presença de Anajara no cenário literário soteropolitano não se resume à publicação de livros. Ela participa de uma rede de produção e circulação que envolve saraus, coletivos, antologias, festivais e espaços de leitura. Desde 2016, sua trajetória está ligada ao Sarau BemBlack, um dos importantes espaços de afirmação da poesia negra em Salvador. Sua produção também alcançou diferentes coletâneas nacionais, incluindo Cadernos Negros.

Entre suas publicações coletivas está Outras Carolinas – Mulherio das Letras Bahia, lançada pela Penalux, da qual Anajara também foi coorganizadora. Sua produção aparece ainda em antologias como Kama – Contos e Poemas Eróticos, Nas Teias de Eros, Poética Periférica: novas vozes da poesia soteropolitana, Mulher Poesia, O Diferencial da Favela e Escrituras Negras – A mulher que reluz em mim.

Esse percurso revela uma característica importante de sua atuação: Anajara constrói sua carreira não apenas como autora de poemas, mas como agente de uma cena literária. A literatura, para ela, acontece na página, mas também no palco, no sarau, na roda, na antologia, na conversa e na circulação entre autores.

É nesse contexto que surge Unguento, seu livro de poemas publicado pela Segundo Selo. A obra, originalmente lançada em 2021, ganhou posteriormente nova edição pela Organismo/Segundo Selo.

Unguento: poesia como cura, corpo e ancestralidade

O próprio título do livro oferece uma chave de leitura. Unguento é aquilo que se aplica sobre uma ferida; é substância de cuidado, proteção e cura. Na poesia de Anajara, a palavra parece cumprir função semelhante: tocar aquilo que dói sem necessariamente apagar a marca da ferida.

A apresentação da obra pela Segundo Selo aproxima os poemas de uma escrita em que ancestralidade, corpo e memória se encontram. Os poemas evocam ventres, umbigos ancestrais, ebós de linguagem, caminhos uterinos e diferentes formas de continuidade entre passado, presente e futuro.

Mas talvez seja insuficiente dizer que Anajara escreve “sobre ancestralidade”. Em sua poética, a ancestralidade parece funcionar antes como forma de perceber o mundo. O passado não está simplesmente atrás do sujeito; ele participa do presente. O corpo carrega memória. A maternidade torna-se lugar de continuidade. O nascimento é também reencontro. A palavra pode ser reza, proteção e gesto de cuidado.

É significativo que um de seus poemas, Ela cresce, publicado posteriormente pela revista elas escrevem, seja apresentado como originalmente publicado em Unguento. O texto articula maternidade, corpo, amamentação, crescimento e vínculo, colocando a experiência materna dentro de uma linguagem profundamente física e afetiva.

Em outros poemas, como Uma versão, Banzeira, Rainha dos Raios, Atlântica Negra e Encruzilhada em construção, aparecem diferentes dimensões dessa escrita. A recepção do livro destaca justamente a conexão entre amor, ancestralidade, experiência e aquilo que a crítica aproxima da escrevivência.

O resultado é uma poesia que não precisa escolher entre o íntimo e o político. O corpo individual pode carregar uma memória coletiva; o afeto pode ser uma forma de resistência; a maternidade pode se tornar uma experiência de continuidade ancestral; e o poema pode transformar aquilo que seria apenas experiência pessoal em matéria compartilhável.

Da margem ao centro — sem abandonar a margem

A própria Anajara já definiu sua posição no campo literário a partir da experiência de uma escritora periférica e mulher negra. Em entrevista durante a Expo Favela 2024, ao falar sobre a circulação de Unguento, chamou atenção para a importância de ocupar espaços de apresentação do próprio trabalho e questionou a histórica condição de corpos negros e periféricos como aqueles que não seriam reconhecidos como produtores de intelectualidade.

Essa dimensão é fundamental para compreender sua trajetória. Anajara não está simplesmente “entrando” no sistema literário; ela participa da transformação desse sistema ao reivindicar outras formas de presença, circulação e reconhecimento.

Sua participação em eventos como a Bienal do Livro Bahia, a Flica, a Flipelô e a Expo Favela mostra justamente esse movimento de expansão de sua circulação.

E, nesse processo, sua poesia mantém uma relação estreita com Salvador. A cidade não aparece apenas como endereço biográfico, mas como território de formação literária. Os saraus, as periferias, os circuitos negros de poesia e as redes de mulheres escritoras constituem parte da infraestrutura cultural que tornou possível a emergência de sua voz.

De Salvador a Cartagena: a literatura como intercâmbio

Em julho e agosto de 2026, essa circulação ganhou uma dimensão internacional. Anajara integrou a delegação baiana que participou do XXIV Parlamento Internacional de Escritores da Colômbia, realizado em Cartagena das Índias entre 29 de julho e 1º de agosto. Ao lado de escritores e escritoras como Cacau Novaes, Rita Pinheiro, Valdeck Almeida de Jesus, Jovina Souza e Cristina Leilane, ela levou a literatura produzida na Bahia para um dos espaços internacionais de encontro literário do continente.

A participação tem um significado que vai além da viagem. Cartagena é um território fundamental para pensar as conexões afro-latino-americanas. A presença de uma poeta negra soteropolitana nesse circuito permite estabelecer uma ponte entre experiências históricas e culturais que, embora pertencentes a países diferentes, compartilham marcas da diáspora africana, da colonialidade, da resistência e da reinvenção cultural.

Para Anajara, a participação no Parlamento representou a realização de um sonho que vinha sendo cultivado desde 2020, quando conheceu o evento por meio de uma atividade virtual. Segundo a poeta, a palavra literária transformou sua trajetória e continua a transformá-la. Ela também destacou a possibilidade de ampliar o diálogo entre territórios afro-latino-americanos e diferentes maneiras de fazer literatura.

Esse intercâmbio é particularmente significativo porque desloca a literatura baiana de uma posição exclusivamente nacional. A poeta passa a participar de uma conversa maior, na qual Salvador pode ser lida em relação a Cartagena, Bahia em relação ao Caribe e as experiências negras brasileiras em diálogo com outras experiências afro-latino-americanas.

Uma nova etapa

A trajetória de Anajara também aponta para novos movimentos de criação. Em 2026, seu projeto Mamãe é Omo-Orixá foi selecionado no edital Bahia que Escreve – Ano II, na categoria destinada a livros de autores baianos. O projeto recebeu nota final 81 e foi selecionado com cota para pessoa negra.

O resultado é significativo porque demonstra como uma trajetória inicialmente construída em circuitos independentes, saraus e coletâneas vem alcançando também mecanismos institucionais de reconhecimento e financiamento da produção literária.

Mas talvez seja justamente aí que a trajetória de Anajara ganhe maior interesse: ela não abandonou o lugar de onde veio para alcançar outros espaços. Ao contrário, parece levar esse território consigo.

Da cena dos saraus negros de Salvador às antologias; das páginas de Unguento aos festivais literários; da experiência da maternidade à ancestralidade; da circulação soteropolitana ao encontro com escritores latino-americanos em Cartagena; da publicação independente aos editais públicos de fomento à literatura — sua trajetória revela uma poeta em movimento.

Anajara Tavares escreve a partir de um corpo situado, mas sua poesia não permanece circunscrita a esse lugar. Ela se desloca.

E talvez essa seja uma das imagens mais adequadas para compreender sua literatura: uma poesia que nasce do território, atravessa o corpo e procura o encontro.

Uma poesia que se faz no trânsito entre a memória e o presente, entre o terreiro e a cidade, entre a página e a voz, entre Salvador e outros territórios da diáspora.

Uma poesia que, como o próprio Unguento, parece saber que algumas palavras não servem apenas para dizer. Algumas palavras também servem para cuidar, lembrar, atravessar e permanecer.

Ag.a Bibliosfera Criativa Brasil

Comentário

  • Anajara Tavares

    Nossa! Que honra ser lida com tamanha generosidade e respeito. Um retrato bonito dessa minha caminhada literária, onde sou corpo-palavra, poesia-caminhante e busco não me perder. Agradeço esse reverberar do meu fazer literário, lugar onde me humanizo e sou educada para edificação.

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