NotíciasRito de Passagem

Rito de Passagem

No dia 21 de março de 1977, numa segunda-feira, nasceu João Vanderlei de Moraes Filho.

Filho de João Vanderlei de Moraes e Nelma Vieira Torres, atravessou quase cinco décadas aprendendo que um nome jamais se limita ao registro civil.

Há nomes que são destino. Há nomes que são travessia. Há nomes que, revelados pelo Odu, anunciam uma forma singular de experimentar o mundo.

Às 18h21 do último dia 25 de julho de 2026, faleceu sua última versão.

Seu sepultamento aconteceu, ritualisticamente, na manhã de hoje, 28 de julho.

Não houve luto.

Houve passagem.

A natureza jamais lamenta aquilo que se transforma. Apenas continua.

Aprendi, ao longo desses anos, que o maior equívoco da modernidade talvez tenha sido nos convencer de que somos indivíduos separados daquilo que nos fez existir. Fizeram-nos acreditar que viver era acumular: bens, títulos, certezas, identidades, respostas.

Pouco a pouco, fomos nos afastando da terra, das águas, do vento, do silêncio. Esquecemos que não pertencemos à natureza.

Nós somos a natureza experimentando a si mesma.

Nas cosmopercepções ancestrais, um nome nunca foi apenas uma forma de chamar alguém. Um nome é uma responsabilidade diante da vida. É um compromisso com aquilo que o Ori escolheu experimentar antes mesmo do primeiro sopro.

O Odu não aprisiona o destino; revela possibilidades de caminhada. Por isso viver nunca significou cumprir uma expectativa, mas escutar, dia após dia, aquilo que a existência continua nos ensinando.

Passei muitos anos tentando caber.

Nas expectativas dos pais.

Da família.

Dos amigos.

Das instituições.

Nas ideias que fizeram de mim e, tantas vezes, nas ideias que eu mesmo construí sobre quem deveria ser.

Até compreender que a árvore nunca pede licença para crescer.

Ela apenas responde ao chamado da luz.

A vida não é sobre diminuir-se para caber na realidade do outro.

É reconhecer-se semente.

Porque a semente não sonha em ser árvore.

Ela já conhece a árvore que carrega.

Há um Atinsá sagrado habitando cada existência. Uma potência silenciosa que não exige aplausos, apenas tempo. Tempo de enraizar. Tempo de atravessar as estiagens. Tempo de aprender que toda raiz cresce no escuro antes que alguém admire a copa.

Somos árvores.

E talvez por isso tantas pedras.

Mas as pedras nunca interromperam o caminho das árvores.Ensinaram-lhes a aprofundar as raízes.

Hoje compreendo que não amadurecemos pelo que conquistamos.Amadurecemos pelo que somos capazes de devolver à terra.

As ilusões.Os medos.As versões que já cumpriram sua tarefa.As certezas que impediram novos horizontes.Tudo aquilo que pesa mais do que nutre.

No dia 21 de março de 1977, numa segunda-feira, nasceu João Vanderlei de Moraes Filho.

Filho de João Vanderlei de Moraes e Nelma Vieira Torres, atravessou quase cinco décadas aprendendo que um nome jamais se limita ao registro civil. Há nomes que são destino. Há nomes que são travessia. Há nomes que, revelados pelo Odu, anunciam uma forma singular de experimentar o mundo.

Às 18h21 do último dia 25 de julho de 2026, faleceu sua última versão.

Seu sepultamento aconteceu, ritualisticamente, na manhã de hoje, 28 de julho.

Não houve luto.

Houve passagem.

A natureza jamais lamenta aquilo que se transforma. Apenas continua.

Aprendi, ao longo desses anos, que o maior equívoco da modernidade talvez tenha sido nos convencer de que somos indivíduos separados daquilo que nos fez existir. Fizeram-nos acreditar que viver era acumular: bens, títulos, certezas, identidades, respostas. Pouco a pouco, fomos nos afastando da terra, das águas, do vento, do silêncio. Esquecemos que não pertencemos à natureza.

Nós somos a natureza experimentando a si mesma.

Nas cosmopercepções ancestrais, um nome nunca foi apenas uma forma de chamar alguém. Um nome é uma responsabilidade diante da vida. É um compromisso com aquilo que o Ori escolheu experimentar antes mesmo do primeiro sopro. O Odu não aprisiona o destino; revela possibilidades de caminhada. Por isso viver nunca significou cumprir uma expectativa, mas escutar, dia após dia, aquilo que a existência continua nos ensinando.

Passei muitos anos tentando caber.

Nas expectativas dos pais.

Da família.

Dos amigos.

Das instituições.

Nas ideias que fizeram de mim e, tantas vezes, nas ideias que eu mesmo construí sobre quem deveria ser.

Até compreender que a árvore nunca pede licença para crescer.

Ela apenas responde ao chamado da luz.

A vida não é sobre diminuir-se para caber na realidade do outro.

É reconhecer-se semente.

Porque a semente não sonha em ser árvore.

Ela já conhece a árvore que carrega.

Há um Atinsá sagrado habitando cada existência. Uma potência silenciosa que não exige aplausos, apenas tempo. Tempo de enraizar. Tempo de atravessar as estiagens. Tempo de aprender que toda raiz cresce no escuro antes que alguém admire a copa.

Somos árvores.

E talvez por isso tantas pedras.

Mas as pedras nunca interromperam o caminho das árvores.

Ensinaram-lhes a aprofundar as raízes.

Hoje compreendo que não amadurecemos pelo que conquistamos.

Amadurecemos pelo que somos capazes de devolver à terra.

As ilusões.

Os medos.

As versões que já cumpriram sua tarefa.

As certezas que impediram novos horizontes.

Tudo aquilo que pesa mais do que nutre.

À margem esquerda do Paraguaçu aprendi uma das maiores lições da minha existência.

Todos os dias lavo o rosto e o Ori nas águas do rio.

Nunca encontro as mesmas águas.

Nunca sou o mesmo homem.

O rio jamais lamenta aquilo que deixou de ser.

Porque conhece o movimento.

Porque sabe que permanecer é uma invenção humana.

A vida, não.

A vida acontece.

O futuro, talvez, seja o único tempo verbal que a natureza conhece.

Não o futuro da promessa.

Mas o futuro conjugado no gerúndio.

Vivendo.

Aprendendo.

Caindo.

Levantando.

Silenciando.

Florescendo.

Regenerando.

A existência não caminha para algum lugar.

Ela acontece enquanto caminhamos.

“Dingo’dingo.”

Passo a passo.

Sem afastar demasiadamente os pés do chão.

Toda árvore conhece a medida do vento porque nunca abandona as próprias raízes.

Toda caminhada possui uma ética.

Todo crescimento exige equilíbrio.

Toda altura depende da profundidade.

Se alguma morte houve nesses dias, foi apenas a daquilo que já não servia ao florescimento.

Nada mais.

A natureza nunca desperdiça uma estação.

As folhas caem para alimentar a terra.

Os frutos amadurecem para repartir sementes.

O barro se desfaz para voltar a ser caminho.

Também nós somos chamados, muitas vezes, a morrer sem deixar de viver.

Agradeço profundamente a todas as pessoas que caminharam comigo até aqui.

À minha família.

Às irmãs e aos irmãos de fé.

Às amigas e aos amigos.

A quem permaneceu.

A quem partiu.

A quem me ofereceu abrigo.

A quem me ensinou, inclusive pela diferença, que crescer é também desapegar-se das versões que já não correspondem ao chamado do Ori.

Nenhum encontro foi em vão.

Tudo vivido tornou-se fundamento.

Tudo sentido tornou-se ancestralidade.

Sigo.

Não em busca de uma nova identidade.

Mas de uma presença mais inteira.

Mais disponível ao invisível.

Mais comprometida com a sensibilidade num tempo em que quase tudo se mede pelo acúmulo e tão pouco pela capacidade de sentir.

Porque viver o sensível tornou-se um ato de coragem.

É desafiar diariamente a lógica da escassez.

É recordar que a floresta não compete entre árvores.

Que o rio não disputa suas águas.

Que o vento não escolhe a quem tocar.

Que a terra nunca abandona uma semente.

Se hoje uma versão minha repousa, é apenas para adubar aquela que continua nascendo.

Porque o falecimento foi simbólico.

A permanência sempre será uma vaga lembrança.

O que permanece, de fato, é o movimento.

E o movimento é a forma mais antiga da vida pronunciar o seu próprio nome.

Axé.

Cachoeira, 28 de julho de 2026

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *