
Quando uma travessia torna-se instituição – A fundação da Casa Amefricana da Poesia – Quilombo da Palavra
Há instituições que nascem do papel.
Outras nascem da insistência.
A Casa Amefricana da Poesia – Quilombo da Palavra pertence ao segundo grupo.
Sua fundação, realizada em 19 de julho de 2024, no Salão Nobre da Augusta e Respeitável Loja Maçônica Caridade e Segredo nº 03, em Cachoeira, não marcou o início de uma caminhada. Representou, antes, a formalização jurídica de uma experiência coletiva que vinha sendo construída ao longo de muitos anos entre livros, encontros, políticas culturais, circulação de autores e diálogos estabelecidos entre territórios da Améfrica.
O ato de fundação ocorreu durante a realização da terceira edição do Quilombo Amefricano de Literaturas, encontro internacional dedicado às literaturas afro-diaspóricas e às cosmopercepções produzidas no Sul Global.
Não foi uma escolha casual.
Foi justamente no momento em que pesquisadores, escritores, editores, artistas, gestores culturais e instituições de diferentes países compartilhavam experiências que se compreendeu a necessidade de constituir uma organização capaz de preservar essa memória e dar continuidade às relações construídas ao longo do tempo.
O Instituto nasce, portanto, como herdeiro direto de uma prática.
Antes de existir juridicamente, já existia enquanto comunidade de trabalho.
Ao longo de sua trajetória, o Quilombo Amefricano de Literaturas percorreu cidades profundamente conectadas pela história atlântica.
Havana, em Cuba.
Cartagena das Índias, na Colômbia.
Cachoeira, no Recôncavo da Bahia.
Territórios atravessados por memórias da diáspora africana, pela circulação de saberes e pela permanência de patrimônios culturais que continuam produzindo novas formas de pensamento e criação.
Esses encontros aproximaram universidades, casas de poesia, editoras independentes, pesquisadores e artistas comprometidos com a construção de outras geografias culturais para a língua portuguesa e para Nuestra Améfrica.
Entre essas articulações destacam-se a participação da Casa de Poesia de Havana, representada pelo poeta Sinecio Verdecia Díaz; do pesquisador colombiano Wilfredo Esteban Vega Bedoya, da Universidade de Cartagena; e do poeta Rómulo Bustos Aguirre, cuja presença fortaleceu os diálogos realizados em Cartagena, especialmente durante as atividades desenvolvidas no Centro Cultural Gabriel García Márquez e no histórico Claustro de La Merced, espaços emblemáticos da cidade amuralhada.
Mais do que intercâmbios acadêmicos, essas experiências produziram vínculos institucionais duradouros.
Um dos desdobramentos desse processo foi a construção de uma agenda permanente de cooperação entre Cachoeira e Cartagena, fortalecendo iniciativas culturais que contribuíram para aproximar as duas cidades em torno de suas heranças afro-atlânticas.
No Brasil, essa caminhada também dialoga com uma trajetória consolidada de atuação no campo do livro, da leitura e da bibliodiversidade.
Ao longo dos últimos anos, diferentes iniciativas editoriais, programas de circulação literária, projetos de formação, ações internacionais e experiências em políticas públicas foram reunindo competências que hoje encontram no Instituto uma casa comum.
A Casa Amefricana da Poesia nasce justamente para preservar, ampliar e conectar essas experiências.
Seu estatuto estabelece um campo de atuação que integra cultura, educação, patrimônio, pesquisa, memória, cooperação internacional e desenvolvimento territorial, compreendendo a leitura e a escrita como práticas sociais capazes de fortalecer comunidades, produzir cidadania e ampliar direitos culturais.
Mais do que uma sede física instalada no marco histórico da cidade de Cachoeira, o Instituto se reconhece como um Quilombo da Palavra.
Um lugar onde diferentes conhecimentos podem conviver.
Onde tradição e inovação dialogam.
Onde oralidade, literatura, memória e criação contemporânea caminham juntas.
Sua primeira diretoria reúne profissionais oriundos de diferentes áreas do conhecimento — literatura, psicologia, música, antropologia, educação, museologia e artes visuais — refletindo a natureza interdisciplinar da instituição e sua vocação para o trabalho colaborativo.
Da mesma forma, seu Conselho de Sócios Fundadores reúne pesquisadores, escritores e agentes culturais do Brasil, Cuba e Colômbia, reafirmando desde sua origem uma perspectiva internacional construída a partir do Sul.
Mais do que uma organização recém-criada, a Casa Amefricana da Poesia representa a continuidade institucional de uma experiência que atravessa fronteiras e reafirma o papel do Recôncavo da Bahia como território produtor de pensamento, literatura e cooperação cultural.
Toda instituição nasce de um sonho.
Algumas conseguem transformar esse sonho em patrimônio coletivo.
A Casa Amefricana da Poesia – Quilombo da Palavra parece caminhar justamente nessa direção.

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