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Quando até a morte vira motivo de briga

Em O Enterro, Pablo Rios transforma o funeral de um homem simples em uma sátira mordaz sobre fé, costumes, vaidades e as contradições de uma pequena cidade do interior baiano

Há histórias que começam com um nascimento. Outras, com uma viagem, um amor ou uma grande descoberta. O Enterro, de Pablo Rios, começa com uma morte.

E não é qualquer morte.

Alípio José da Silva Santos Silva, pedreiro, homem simples, morador de Riacho Grande, morre inesperadamente em um acidente de trabalho. A partir daí, aquilo que deveria ser apenas um momento de despedida transforma-se, pouco a pouco, em um acontecimento que envolve família, religião, política, futebol, vizinhança, costumes e — sobretudo — muita confusão.

O que fazer com um morto quando os vivos não conseguem chegar a um acordo?

É justamente dessa pergunta, aparentemente simples, que Pablo Rios constrói uma narrativa de humor ágil, personagens caricaturais e situações que parecem absurdas — até percebermos que talvez não sejam tanto assim.

De um lado está Dona Mariquinha, mãe de Alípio, católica fervorosa. Do outro, Bendita, sua viúva, convertida ao universo evangélico. Entre elas, o funeral deixa de ser apenas um ritual de despedida e passa a ser também uma disputa pela maneira “correta” de conduzir o morto à sua última morada.

E quando entram em cena um padre, um pastor, familiares, curiosos, políticos, jogadores de futebol e moradores da cidade, o que já parecia complicado ganha proporções inesperadas.

Um enterro que ninguém consegue enterrar

Com uma escrita marcada pela oralidade, pelo deboche e pela caricatura, Pablo Rios conduz o leitor por uma pequena cidade onde a morte de um homem revela muito mais do que se poderia imaginar sobre os vivos.

Em O Enterro, o velório não é apenas velório. O cortejo não é apenas cortejo. O cemitério não é apenas cemitério.

Tudo pode virar disputa.

Uma palavra pode provocar uma discussão. Uma crença pode virar confronto. Uma partida de futebol pode esperar — ou talvez não. E, quando todos parecem ter uma opinião sobre o que deve ser feito, surge uma pergunta incômoda: quem, afinal, está se despedindo de Alípio?

O humor de Pablo Rios nasce desse desencontro. Seus personagens defendem convicções, tradições e certezas com uma intensidade que frequentemente contrasta com aquilo que deveriam estar praticando: solidariedade, respeito, amor e cuidado.

Por trás das gargalhadas, há uma crítica à intolerância religiosa, às vaidades cotidianas, às disputas de poder e às pequenas — e grandes — hipocrisias que atravessam a vida comunitária.

Mas o autor não transforma sua narrativa em sermão. Ao contrário: prefere o riso. É pela comicidade que o leitor entra na história; é pela estranheza das situações que continua avançando; e é talvez somente depois de fechar o livro que percebe que, por trás daquela confusão toda, havia algo muito sério sendo contado.

Quem enterra quem?

Há um momento em que a cidade parece esquecer o morto.

Enquanto os vivos discutem, Alípio permanece no centro de tudo — silencioso, imóvel, quase como se a própria morte fosse uma testemunha daquilo que os vivos fazem em seu nome.

É nesse ponto que O Enterro deixa de ser apenas uma história engraçada sobre uma cidade do interior e passa a interrogar o leitor.

O que acontece quando nossas certezas se tornam mais importantes que o outro?

Pablo Rios escreveu a história originalmente entre 2004 e 2006. Depois de quase duas décadas, entre revisões, esquecimento e resgate, o livro finalmente ganhou edição pela Portuário Atelier Editorial, em São José do Jacuípe, em 2025.

O resultado é uma narrativa que carrega o sabor da conversa de cidade pequena, a irreverência da literatura popular e uma crítica social que não precisa levantar a voz para ser percebida.

Porque talvez essa seja a grande provocação de O Enterro:

há coisas que deveriam ser enterradas — mas continuam vivas.

E talvez, quando você começar a ler, descubra que a história de Alípio não é somente sobre um enterro.

É sobre os vivos.


O ENTERRO

Pablo Rios
Portuário Atelier Editorial

Uma história para quem gosta de literatura brasileira, humor, sátira social e personagens que parecem ter saído diretamente da esquina, da feira, da igreja ou da conversa de domingo.

Leia. Ria. Desconfie. E descubra o que aconteceu no enterro de Alípio. Adquira, clique na Livraria Amefricana

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