
O Relógio que desaprendeu a correr: a escrita de Jamal Wallace, em Instantes
Por jlaf mahat àlàiyé.
Há cidades onde o tempo não se mede por ponteiros, mas por marés e sombras que se alongam nas pedras coloniais. É nesse cenário, sob o sol do Recôncavo Baiano, que nasceu Instantes. A obra de estreia de Jamal Wallace não chegou ao mundo como um projeto planejado de “fazer literatura”, mas como um transbordamento de vida. No prefácio assinado por Michele Mota Souza, somos alertados logo de partida: não se trata de um texto qualquer, mas de um “texto de Amor”, escrito para quem se escolhe amar.
A trajetória de Wallace, como o texto sugere, é marcada por uma geografia de contrastes. O autor, que por muito tempo respirou o ritmo frenético e as abordagens muitas vezes hostis de uma Salvador periférica, encontrou em Cachoeira um “porto de mansidão”. Ali, onde a vida é feita a pé e o silêncio tem voz, ele permitiu que seus muitos “eus” — o jovem negro, o estudante obstinado, o observador de sombras — ganhassem papel e caneta.
Michele nos conta que teve o privilégio de ler essas páginas no compasso em que eram paridas. O que ela encontrou, e o que agora chega ao leitor, é uma “estética-poética-existencial” que não pede licença. Wallace escreve com a liberdade de quem não busca aprovação acadêmica, mas sim o reconhecimento das próprias metamorfoses. Ele bebe da fonte de Gaston Bachelard para entender que o tempo é descontínuo: um instante nos doa uma memória, o próximo nos espolia de uma certeza.
O livro se divide entre o “Eu” e “Outras Coisas”, mas a fronteira entre ambos é líquida como o Rio Paraguaçu.. Na apresentação, percebemos que a escrita de Jamal foi o “machado” que Kafka dizia ser necessário para quebrar o mar gelado dentro de nós. Seus contos e crônicas — que falam desde a lealdade de um ventilador nas noites de estudo até encontros fantasmagóricos com a arte — são tentativas de diluir a imprevisibilidade da vida através da fantasia.
Ler Instantes é aceitar um convite à uma sensibilidade. É descobrir que, para um homem que enfrentou estatísticas e silenciamentos, colocar o próprio nome em um carimbo de livro ou descrever a “prima de Mona Lisa” escondida em um corredor estreito é, acima de tudo, um ato de existência. Como bem resume o prefácio, Jamal Wallace não apenas escreve histórias; ele transcreve para o mundo o resultado inacabado de ser humano em um lugar onde os deuses ainda dançam e o cotidiano insiste em ser mágico.
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