
A educação negada: uma leitura urgente para pensar a América Latina
jlaf mahat alaiye
Publicado pela Portuário Atelier Editorial, o livro A educação negada: contribuições a partir de um pensamento americano, do pesquisador argentino José Alejandro Tasat, emerge como uma das mais consistentes reflexões latino-americanas sobre educação, modernidade e colonialidade do saber. Resultado de sua tese de doutorado, a obra atravessa filosofia, sociologia, pedagogia e pensamento decolonial para questionar uma das promessas centrais da modernidade: a ideia de que a educação formal seria, universalmente, caminho de emancipação.
Ao longo do livro, Tasat demonstra como o sistema educacional moderno foi estruturado a partir de um imaginário europeu, racionalista e colonial, que hierarquizou saberes e invisibilizou experiências ancestrais, populares e comunitárias da América Latina. O autor argumenta que aquilo que a modernidade chamou de “progresso” produziu simultaneamente exclusões, apagamentos e a negação de outras formas legítimas de conhecimento. Em diálogo com pensadores como Paulo Freire, Rodolfo Kusch, Aníbal Quijano, José Martí e Milton Santos, a obra desloca o eixo da reflexão pedagógica para aquilo que chama de “pensamento americano”, propondo uma educação enraizada nos territórios, nas culturas e nas experiências históricas dos povos latino-americanos.
Um dos méritos centrais da pesquisa está na articulação entre reflexão teórica e estudo de caso. A partir de entrevistas com trabalhadores municipais da periferia de Buenos Aires, Tasat investiga as representações sociais sobre o valor da educação, revelando as tensões entre escolarização, reconhecimento social e exclusão simbólica. O autor mostra como o ideal moderno de “ser alguém na vida” se converteu em dispositivo de classificação social, ao mesmo tempo em que saberes não certificados continuam vivos nas experiências cotidianas, na oralidade e na memória coletiva.
A edição brasileira do livro possui ainda um significado político e cultural que ultrapassa a simples tradução editorial. Produzido em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, pela Editora Portuário, o projeto simboliza um gesto concreto de integração intelectual latino-americana. Ao traduzir e publicar um autor argentino comprometido com o pensamento decolonial e as epistemologias do Sul, a editora reafirma seu papel como ponte entre experiências culturais e acadêmicas da América Latina, conectando Brasil, Argentina, Caribe e Andes em um mesmo horizonte de diálogo.
Mais do que publicar livros, a Portuário vem consolidando um catálogo que confronta a centralidade eurocêntrica do mercado editorial brasileiro, apostando em obras que fortalecem a bibliodiversidade e os intercâmbios entre intelectuais, escritores e pesquisadores do Sul Global. Nesse sentido, A educação negada não é apenas uma tradução: é parte de um projeto editorial e político que aproxima territórios historicamente fragmentados pela colonialidade, criando novas possibilidades de circulação para pensamentos produzidos desde Nuestra América.
Em tempos de crises educacionais, avanço da mercantilização do ensino e disputas sobre memória e identidade cultural, o livro de Alejandro Tasat surge como leitura necessária para educadores, pesquisadores e leitores interessados em compreender como a educação também pode ser espaço de disputa civilizatória. A obra convida o leitor a pensar não apenas “sobre” a América Latina, mas sobretudo “desde” a América Latina.

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