
Rádi Oliveira e o sopro da palavra ancestral: uma poética do Recôncavo para Nuestra Améfrica
jlaf mahat alàyié
Quando a Revista Crescer anunciou Terreiro Enluarado entre os 30 livros infantis mais importantes de 2026, o reconhecimento ultrapassou a celebração de uma obra literária. A distinção lançou luz sobre uma trajetória construída pacientemente nos quintais, terreiros, escolas, rodas de leitura, encontros comunitários e caminhos poéticos do Recôncavo Baiano. Ao reconhecer Rádi Oliveira, o país reconhece também uma forma singular de pensar a literatura, a educação e a cultura a partir de experiências afrocentradas historicamente invisibilizadas pelos discursos dominantes.
Escritora, educadora cultural, compositora e multiartista, Rádi Oliveira é uma das vozes mais originais surgidas nas últimas décadas no Recôncavo da Bahia. Natural de Santo Amaro da Purificação e residente em Santo Antônio de Jesus, construiu sua trajetória na confluência entre criação artística, mediação cultural e formação humana. Seu chão poético não nasce do isolamento do gabinete, mas da convivência comunitária, da escuta atenta e da circulação da palavra em espaços coletivos.
Ao longo dos anos, participou e impulsionou experiências como o Sarau FlorAção do Verso, os projetos Poesia Ouvida e PaLavrar, além de integrar a fundação do Instituto Casa Amefricana da Poesia. São iniciativas que compartilham um mesmo princípio: compreender a literatura como encontro. Antes de ser objeto de estudo ou produto cultural, a palavra é relação, memória e presença.
Essa compreensão atravessa toda a obra de Rádi Oliveira. Sua escrita nasce da escuta. Escuta dos mais velhos, guardiões de saberes que atravessaram gerações. Escuta das crianças, portadoras de formas de conhecimento frequentemente desconsideradas pelas pedagogias convencionais. Escuta dos territórios, dos silêncios, dos cantos e dos afetos que compõem a experiência cotidiana das comunidades negras do Recôncavo.
Por isso, sua produção literária não pode ser dissociada de sua atuação como educadora cultural. Em sua trajetória, arte e educação caminham juntas. Não como campos separados, mas como dimensões complementares da experiência humana. Seu trabalho desenvolve aquilo que poderíamos chamar de uma poética pedagógica, fundamentada na compreensão de que aprender é também recordar, imaginar, ouvir e pertencer.
Trata-se de uma pedagogia situada, construída a partir das realidades concretas das comunidades negras e dos ensinamentos presentes nas cosmovisões africanas que continuam vivas nos territórios do Recôncavo. Uma pedagogia que questiona a pretensão universalizante dos modelos modernos de educação e reivindica o reconhecimento de outras formas de produzir conhecimento.
Nessa perspectiva, os terreiros, os quintais, as cozinhas, as festas populares, os rios, as árvores e as relações comunitárias tornam-se espaços legítimos de formação. O conhecimento não se limita à sala de aula nem se restringe à escrita formal. Ele circula pela oralidade, pelo gesto, pelo canto, pelo corpo e pela memória coletiva.
Talvez seja justamente essa compreensão que confere tanta força a Terreiro Enluarado. O livro celebra o brincar, a natureza e as ancestralidades que caminham de mãos dadas com as crianças. Em suas páginas, a infância não aparece como preparação para a vida adulta, mas como território pleno de criação, imaginação e sabedoria.
Ao mesmo tempo, a obra desafia uma tradição excessivamente grafocêntrica da leitura. A escrita de Rádi pede voz. Pede corpo. Pede escuta. O texto funciona como uma partitura aberta para a oralidade. Ler torna-se um ato coletivo, uma experiência compartilhada entre quem fala, quem ouve e quem imagina.
Não por acaso, muitos leitores identificam em Terreiro Enluarado uma qualidade rara: a capacidade de transformar a leitura em acontecimento. A palavra escrita não encerra o sentido. Ela o inaugura. A literatura torna-se canto, memória e presença.
Essa característica aproxima sua produção daquilo que o Instituto Casa Amefricana da Poesia vem provocando como literatura-terreiro: uma criação literária que reconhece os múltiplos sistemas de conhecimento produzidos pelos povos afrodescendentes e que compreende a escrita como uma entre diversas formas de transmissão cultural. Nessa perspectiva, a palavra impressa dialoga com a oralidade, a música, o corpo, o rito e a experiência comunitária.
A própria trajetória de Rádi dentro da Casa Amefricana da Poesia expressa esse compromisso. Como cofundadora da instituição, encontrou ali um espaço fértil para desenvolver pensamento crítico sem abrir mão da delicadeza da criação. Um território de liberdade intelectual onde arte, educação, ancestralidade e política cultural se encontram.
A Casa Amefricana da Poesia nasceu para provocar novas formas de imaginar a produção literária a partir de um território profundamente afrocentrado como o Recôncavo Baiano. Um território onde a presença africana não constitui apenas uma herança histórica, mas uma força viva que continua produzindo conhecimento, estética e modos próprios de interpretar o mundo.
É justamente nesse horizonte que ganha relevância a ideia de Nuestra Améfrica, formulada pela intelectual brasileira Lélia Gonzalez. Mais do que uma categoria geográfica, trata-se de uma perspectiva que reconhece os vínculos históricos, culturais e políticos entre os povos negros e indígenas das Américas e do Caribe. Uma forma de compreender o continente a partir das experiências daqueles que foram sistematicamente excluídos das narrativas oficiais.
A obra de Rádi Oliveira dialoga profundamente com essa perspectiva. Sua palavra nasce do Recôncavo, mas encontra ressonância em muitos outros territórios marcados pela diáspora africana. Nos últimos anos, sua literatura atravessou fronteiras e encontrou acolhimento em importantes espaços de intercâmbio cultural promovidos pela Casa Amefricana da Poesia.
Em Cartagena das Índias, na Colômbia, cidade que compartilha com Cachoeira profundas conexões históricas e culturais forjadas pela presença africana nas Américas, sua poesia encontrou interlocutores atentos às experiências comuns que unem os povos afrodescendentes do continente. As ruas de pedra, os tambores, os corpos negros em movimento e as memórias da resistência colonial revelaram afinidades que ultrapassam os limites nacionais.
Experiência semelhante ocorreu em Havana, Cuba, outro território fundamental para a compreensão das culturas afro-atlânticas. Ali, sua palavra encontrou leitores, artistas, educadores e agentes culturais comprometidos com a valorização das heranças africanas presentes no Caribe.
Esses encontros alcançaram um momento emblemático durante as atividades do Quilombo Amefricano de Literaturas. Diante de públicos compostos por cubanos, colombianos e brasileiros, Rádi compartilhou leituras de sua obra e reflexões sobre infância, ancestralidade, oralidade e educação. Sua presença demonstrou que uma literatura produzida a partir do Recôncavo pode dialogar diretamente com experiências vividas em diferentes territórios da diáspora.
Tal circulação internacional não representa apenas o reconhecimento de uma autora. Representa o reconhecimento de um território. O reconhecimento de uma tradição cultural. O reconhecimento da potência intelectual e artística produzida por mulheres negras que transformam suas experiências comunitárias em linguagem universal.
Por isso, a escolha de Terreiro Enluarado entre os livros infantis mais importantes do ano possui um significado que ultrapassa os limites do mercado editorial. Trata-se de uma afirmação da relevância de outras epistemologias, outras pedagogias e outras formas de imaginar a literatura.
Ao celebrar Rádi Oliveira, celebramos também o Recôncavo Baiano como território de criação de conhecimento. Celebramos a Casa Amefricana da Poesia como espaço de formulação crítica e experimentação estética. Celebramos as infâncias negras como produtoras de cultura. Celebramos os mais velhos como bibliotecas vivas. Celebramos a oralidade como tecnologia ancestral de transmissão de saberes.
E celebramos, sobretudo, a força de uma autora que transformou a escuta em método, a memória em poesia e a palavra em vento. Um vento que continua soprando sobre nossos oris, conectando o Recôncavo a Nuestra Améfrica e fazendo da literatura uma travessia possível entre passado, presente e futuro.
Comentário
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valdeck almeida de jesus
Uma lindeza recheada de compromisso, com a palavra, com o fluxo contínuo do axé que nos mantém de pé, com o sopro de vida que atravessa toda nossa existência, nossa ancestralidade e nosso futuro nesse fio condutor de amor pela humanidade. uma lindeza que respeita os diferentes fazeres, os modos de sentir e expressar. fiquei muito feliz pela apresentação dessa deusa ao nosso mundo múltiplo, de palavras escritas, ditas e não ditas, mas sentidas no vento.
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Patricia Braga
Sinto que a literatura da Radi não se lê apenas com os olhos, mas com o corpo inteiro, com a escuta, com a memória, acompanhado de generosa dose de afeto e intelecto.
Radi com sua escrita conseguiu, com tanta delicadeza e precisão, tecer os fios que conectam palavras do chão sagrado do Recôncavo, às infâncias negras, à oralidade viva e à força de Nuestra Améfrica. Gratidão por ver o reconhecimento de Terreiro Enluarado, e por vir nos lembrar que celebrar Radi é celebrar uma forma inteira de existir, criar e educar. Que esse vento siga soprando, e que mais vozes se permitam aprender com essa poética encantada e revolucionária.

Radi Oliveira dos Santos
“Agô”
Sabe, há agradecimentos que ultrapassam o afeto, nesse caso, pela referência da matéria eu agradeço à Portuário porque suas palavras de abraçar minha caminhada e ações como parte/base para o Livro Terreiro Enluarado aparecem na coerência do seu trabalho e importância no nosso território pelo compromisso com aquilo que também acredito: a literatura como encontro, território, memória e possibilidade de futuro. Quando uma casa editorial torna visíveis determinadas vozes, ela não apenas publica textos; ela assume publicamente determinados compromissos culturais e políticos. Ela ajuda a ampliar mundos.
Por isso, ceito feliz suas palavras porquê esse texto não celebra apenas uma autora. Ele celebra uma forma de entender a literatura palavreada em tudo , porquê tudo diz, como prática viva, comunitária e ancestral que a Portuário e tudo que abarca acredita e promove.
Agradeço o generoso escutar, para além das palavras… os sopros que as antecedem. Porquê nesse movimento de escuta, se minha voz aparece, é porque muitas outras vozes sopram através dela. Vinda de quintais, terreiros, rios, livros e afetos. Recebo esta leitura como quem recebe água fresca no caminho: com alegria, responsabilidade e desejo de continuar e que toda leitura seja também encontro e travessia.
Abraço enluarado