
Entre aboios, memória e literatura: Pablo Rios transforma o sertão da Bacia do Jacuípe em narrativa viva
Romance publicado pela Portuário Atelier Editorial apresenta o sertão da Bacia do Jacuípe como território de memória, linguagem e resistência cultural
Há livros que parecem escritos não apenas com palavras, mas com poeira de estrada, aboios antigos, fumaça de candeeiro e memória sertaneja. Assim é Bom Vaqueiro, bom vaqueiro, romance do escritor Pablo Rios, publicado pela Portuário Atelier Editorial.
Desde as primeiras páginas, Pablo Rios mergulha o leitor numa experiência profundamente ligada ao sertão baiano. O romance se inicia acompanhando Venâncio, vaqueiro errante, bruto, contraditório e humano, atravessando estradas rumo a São José do Jacuípe, carregando consigo desejos, culpas, violências e saudades. A oralidade sertaneja explode já nas primeiras linhas da narrativa, revelando uma escrita que não teme o regionalismo — ao contrário: faz dele potência estética.
“Ia Venâncio montado em seu cavalo, cantarolando pelo caminho, enquanto se dirigia a São José do Jacuípe.”
Mais do que representar o sertão, Pablo Rios faz o sertão falar. O texto pulsa em ritmos orais, em expressões populares, em construções linguísticas que preservam o modo de dizer das comunidades sertanejas da Bacia do Jacuípe. O resultado é uma narrativa viva, carregada de humor, brutalidade, afetos e tensão social.
Ao chegar à fazenda Égua Parda, Venâncio encontra um universo marcado pelas hierarquias rurais, pela cultura do gado, pela masculinidade violenta e pelas relações de poder típicas do interior nordestino. Mas o romance não se limita ao imaginário tradicional do vaqueiro heroico. Há ali personagens ambíguos, desejos reprimidos, conflitos raciais, tensões amorosas e uma permanente sensação de instabilidade moral.
O episódio do boi Trovoada, por exemplo, transforma-se numa das grandes cenas do livro. O animal — descrito quase como entidade demoníaca — coloca à prova a coragem de Venâncio diante de toda a comunidade da fazenda.
“O boi deu meia volta e investiu novamente contra seu perseguidor.”
A sequência revela a força cinematográfica da escrita de Pablo Rios. O leitor praticamente vê a poeira levantando, escuta o couro rangendo e sente o medo coletivo espalhado pelo terreiro da fazenda.
Mas Bom Vaqueiro, bom vaqueiro também é um romance sobre pertencimento e identidade territorial. São José do Jacuípe surge não apenas como cenário, mas como território afetivo e político. Em diversos momentos, os personagens defendem ferozmente o nome da cidade, recusando apelidos pejorativos usados por visitantes. A defesa do lugar se transforma em afirmação de dignidade coletiva, revelando um sertão consciente de si.
Ao mesmo tempo, Pablo Rios constrói personagens populares de enorme densidade humana. Chiquinho Góis, Joaquim, Libório, Dona Jandira e Bernadete escapam dos estereótipos simplistas frequentemente impostos às narrativas sertanejas. São figuras contraditórias, atravessadas por violência, humor, ternura e preconceito — como qualquer sociedade real.
O romance também chama atenção pela capacidade de registrar modos de vida do interior baiano hoje ameaçados pelas transformações sociais contemporâneas: as feiras livres, os aboios, os rituais domésticos, o café compartilhado, as noites iluminadas por candeeiros, os currais, as carroças e as conversas em varandas.
“Era aquela maravilha de vida na roça com gosto de saudade.”
Nascido em São José do Jacuípe, Pablo Rios é professor, pesquisador, artista plástico e articulador cultural. Sua trajetória está profundamente ligada às ações de formação leitora e valorização da cultura sertaneja na Bacia do Jacuípe. Em Bom Vaqueiro, bom vaqueiro, essa vivência territorial aparece convertida em literatura de grande potência imagética e simbólica.
Ao publicar a obra, a Portuário Atelier Editorial reafirma seu compromisso com a bibliodiversidade baiana e com a circulação de autores que produzem literatura desde os territórios do Recôncavo e do semiárido. Trata-se de uma aposta editorial importante: oferecer ao leitor narrativas que escapam das centralidades tradicionais do mercado do livro brasileiro.
Bom Vaqueiro, bom vaqueiro é um romance para leitores interessados em literatura nordestina contemporânea, oralidade, memória sertaneja e narrativas profundamente enraizadas na experiência popular do interior da Bahia.
O livro está disponível no catálogo da Livraria Amefricana / Portuário Atelier Editorial.

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