Caruru dos Sete PoetasPoesia da cor do azeite e do sabor do sagrado: 21 anos do Caruru dos Sete Poetas

Poesia da cor do azeite e do sabor do sagrado: 21 anos do Caruru dos Sete Poetas

Há tempos venho refletindo sobre os limites e as possibilidades da gestão cultural em territórios marcados por saberes ancestrais. Não me refiro apenas à gestão como técnica, planejamento, execução financeira ou cumprimento de metas, Organização da cultura. Refiro-me à gestão como experiência de vida, como ação política e como forma de existir no mundo de onde nutrimos e criamos a partir de poéticas emancipatórias.

Talvez essa reflexão tenha amadurecido justamente nos últimos anos, atravessada por acontecimentos que me deslocaram profundamente.

O falecimento de meu pai.

Atravessamentos com a realização da primeira edição do Quilombo Amefricano de Literaturas, em Havana, Cuba.

O adoecimento e a passagem de minha Gayaku.

O período de luto e recolhimento que se impôs.

Foram experiências distintas, mas ligadas por uma mesma encruzilhada: como seguir produzindo cultura quando a própria cultura, em sua dimensão mais profunda, exige pausa, escuta e resguardo? É na caminhada que as vozes dos mais velhos transmitem o autocuidado e a sabedoria do acolhimento. O aprendizado chega pela ausência que é presença no vazio necessário para germinar o novo.

Durante muito tempo me vi diante dessa questão.

No mundo da gestão cultural, somos educados para responder ao cronograma, à meta, ao prazo, ao TAC, à prestação de contas, aos indicadores e aos produtos. Tudo isso é necessário. Tudo isso faz parte da responsabilidade pública que assumimos quando celebramos pactos institucionais e acessamos recursos da sociedade. Tudo isso também é merito de uma política cultural construía para reparar tristes tradições.

Mas existe outra dimensão da experiência cultural que raramente aparece nos formulários. No Recôncavo da Bahia, e em tantos territórios afro-brasileiros, a cultura não nasce apenas da estética. A estética é fruto. A raiz está em outro lugar. Muitas vezes a centelha criadora habita o sagrado. Habita a ancestralidade. Habita os pactos invisíveis que organizam a vida antes mesmo que ela se converta em espetáculo, livro, recital, festival ou política pública.

Foi exatamente essa dimensão que se impôs quando o Caruru dos Sete Poetas não pôde ser realizado no ano passado. Como celebrar a magnitude de uma obrigação de 21 anos de Caruru dos Sete Poetas, consolidando a expressão do Caruru dos Sete Meninos como Patrimônio Cultural do Estado, como o dofono do barco, o gestor do projeto, estando eu de luto pelo meu pai e minha mãe de santo em tratamento de C.A. em UTI. A noção de tempo e responsabilidade riscaram no chão um terceiro caminho: “tradição não evolui” na voz de Gayaku Luiza de Oya regida no Ori em bom som.

Alguns poderiam interpretar o adiamento como dificuldade organizacional.

Não foi.

A razão era mais profunda.

O caruru possui fundamento.

O quiabo possui fundamento.

O azeite possui fundamento.

A celebração possui fundamento.

E determinados fundamentos não se negociam com o calendário burocrático.

O luto não é apenas um estado emocional.

Em nossa tradição, ele também organiza o tempo.

Há momentos em que celebrar seria uma forma de desrespeito.

Há momentos em que insistir na realização de um evento seria ignorar aquilo que sustenta sua própria existência.

A questão que emerge daí é política. Como dialogar com o Estado quando a racionalidade que organiza nossa prática cultural não é inteiramente a mesma racionalidade que organiza a administração pública? Não se trata de oposição. Ao contrário.

Ao longo de todos esses anos, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia tem sido uma parceira fundamental de nossa caminhada. Muito do que aprendemos sobre organização, institucionalidade e políticas culturais foi construído nesse diálogo permanente. Mas o amadurecimento dessa relação talvez exija uma reflexão mais ampla.

A cultura não pode ser compreendida apenas pela diversidade de suas expressões. É necessário compreender também a diversidade de suas formas de organização.

Nem toda cultura é produzida a partir da mesma experiência do tempo.

Há culturas organizadas pelo tempo linear.

Outras se organizam pelo tempo circular.

Há culturas que operam pela lógica do cronograma.

Outras que respondem aos ciclos, aos ritos, às memórias e aos ensinamentos transmitidos de geração em geração.

Como nos ensinou Milton Santos, o pensamento nasce do território.Como nos ensinou Paulo Freire, existe um saber que antecede a palavra escrita.

Como nos ensinou Antonio Gramsci, a produção intelectual não se limita às universidades; ela também emerge dos sujeitos situados em seus contextos históricos.

Falo, portanto, desde um território.

Falo como poeta.

Como editor.

Como gestor cultural.

Como homem de terreiro.

Como alguém que aprendeu que organizar cultura é também organizar sentidos, afetos, responsabilidades e pertencimentos.

Por isso me reconheço na afirmação de Victor Vich quando compreende a gestão cultural como ação política. Mas acrescentaria: em nossos territórios, a gestão cultural é também uma ação cosmológica. Ela precisa responder simultaneamente às exigências da institucionalidade e às orientações de uma visão de mundo que não nasceu na modernidade europeia. Esse talvez seja um dos maiores desafios de nossa geração. Construir instituições sem abrir mão da ancestralidade.

Dialogar com o Estado sem abandonar nossos fundamentos. Cumprir responsabilidades públicas sem permitir que a burocracia se torne superior aos princípios que dão sentido à própria ação cultural. Afinal, nós somos a instituição. E aquilo que construímos ao longo de décadas não é apenas um projeto.

É uma comunidade de memória.

É uma experiência coletiva.

É uma gira de afetos, saberes e responsabilidades.

É por isso que a celebração da obrigação de 21 anos do Caruru dos Sete Poetaspossui um significado tão especial. Vinte e um anos. No candomblé, a maioridade.

Na trajetória do Caruru, um marco histórico. Há duas décadas, poucos imaginavam que uma celebração fundada na palavra, no dendê, na poesia e na ancestralidade alcançaria tamanha permanência.

Hoje, olhando para trás, percebemos que não se trata apenas de longevidade.

Trata-se de continuidade.

De transmissão.

De compromisso.

De axé.

Por isso, convidamos todas as pessoas que caminham conosco para esta celebração. O Recital com Gostinho de Dendê não é apenas um evento literário.

É a continuidade de uma história coletiva. É a afirmação de que a poesia também pode ser servida em gamela. É a certeza de que a palavra escrita continua dialogando com aquilo que veio antes dela.

Porque somos da cor do azeite e do sabor do sagrado. Mas somos, sobretudo, poesia.

João Vanderlei de Moraes Filho, idealizador e dofono do Caruru dos Sete Poetas: recital com gostinho de dendê.

Comentário

  • SILVESTRE LUIS BARBOSA DOS SANTOS

    Muito bom e avante poetas

    • Portuário Atelier Editorial

      Bom dia, meu irmão!

      A bença.

      Vou responder ao seu texto com uma reflexão que ouvi certa vez de Muniz Sodré e que nunca mais saiu da minha cabeça: se existe cultura neste país, é porque os povos de terreiro resistiram.

      Os povos e comunidades tradicionais de terreiro atravessaram uma diáspora perversa, carregando consigo não apenas a dor, mas também tecnologias ancestrais, saberes, fazeres, filosofias, formas de organização da vida e modos de produzir cultura. Grande parte do que hoje reconhecemos como cultura brasileira foi preservada, recriada e transmitida por esses territórios de resistência.

      Seu ensaio traz uma reflexão muito importante sobre os limites e as possibilidades da gestão cultural em territórios marcados por saberes ancestrais. O texto me chamou a atenção, sobretudo, por colocar em evidência uma questão que nem sempre recebe o devido cuidado: a necessidade de compreendermos que nem toda experiência cultural se organiza a partir da lógica institucional, dos cronogramas, dos prazos e dos formulários.

      Existem tempos, fundamentos, memórias, responsabilidades e compromissos ancestrais que também orientam e sustentam a vida cultural dos nossos territórios.

      Ao ler seu texto, um outro ponto me atravessa profundamente. Muitas vezes, os processos institucionais conseguem reconhecer a cultura apenas quando ela se transforma em projeto, contrato, meta, indicador, prestação de contas ou política pública. Tudo isso é importante e necessário, mas nem sempre consegue enxergar a dimensão mais profunda da gestão cultural popular, coletiva, comunitária e ancestral.

      Sua reflexão me faz pensar justamente nesse desafio: como construir institucionalidade sem invisibilizar os modos próprios de organização dos povos? Como dialogar com o Estado sem apagar os fundamentos, os tempos, os ritos, os afetos e as cosmologias que sustentam a vida cultural dos nossos territórios?

      Talvez um dos grandes desafios do nosso tempo seja fazer com que a gestão cultural institucional reconheça que existe uma gestão cultural anterior a ela: aquela construída pelos povos, pelas comunidades, pelos terreiros, pelos quilombos, pelas memórias coletivas e pelas ancestralidades que mantiveram viva a cultura muito antes de ela se tornar política pública.

      Ao mesmo tempo, sua reflexão nos convida a pensar sobre o cuidado com nosso povo, com nossos mestres e mestras, com nossos processos de transmissão de saberes e com as formas próprias de organização construídas pelas comunidades ao longo de gerações.

      Seu texto toca exatamente nessa encruzilhada e, por isso, é tão potente. Foi uma leitura que me atravessou e me fez pensar bastante.

      Adupé, meu irmão.

      Axé, vida longa ao Caruru dos Sete Poetas e à maioridade dessa gira de memória, poesia e ancestralidade.

      Abraço forte
      Janete magno
      Via zap

  • èbora

    Salve poeta! Vida Longa ao Caruru dos sete poetas e viva a maioridade da roda! Já quero estar com vocês nessa digna comemoração. Abraço

  • Évora

    Rapaz, saiu outro nome hahah

  • Évora

    Como não celebrar a nossa ancestralidade poética aínda mais quando temperada no dendê, Vida Longa ao Caruru dos sete poetas!

  • Emílio Tapioca

    Como não celebrar a nossa ancestralidade poética, ainda mais quando temperada no dendê, Vida Longa ao Caruru dos sete poetas!

  • valdeck almeida de jesus

    Um momento histórico e sagrado, em que saberes imateriais sentam à mesa, e o cheiro do dendê, as crianças e os/as poetas se encontram. nenhum manual dá conta. nenhum cronograma atende. é preciso tempo e maturidade para manter uma tradição.

  • valdeck almeida de jesus

    Axé João.o Bejiró! Saudações culturais irmão Camarada. Viva sua saúde sua energia para que sempre gerações tenham oportunidades de assistirem e também para participarem. Com suas inspirações poéticas revolucionárias Românticas.

  • VALTER SOUZA

    Meu querido irmão João, seu texto é uma ciranda de sentimentos, onde cada palavra fora arrancada a Machado para expressar com propriedade a nobreza e glória de uma tradição. Parabéns por nos proporcionar esse mergulho no “dendê”!

  • valdeck almeida de jesus

    Irmão, João. Este trabalho poético tece, com sensibilidade e profundidade, os fios da gestão cultural, da ancestralidade e do luto, transformando memória em resistência e palavra em cuidado.
    Que sua obra siga inspirando reflexões, despertando consciências e fortalecendo os laços entre passado, presente e futuro. Parabéns pela publicação.
    Axé!

  • LEONILZA SOARES DE SANTANA

    Irmão, João. Este trabalho poético tece, com sensibilidade e profundidade, os fios da gestão cultural, da ancestralidade e do luto, transformando memória em resistência e palavra em cuidado.
    Que sua obra siga inspirando reflexões, despertando consciências e fortalecendo os laços entre passado, presente e futuro. Parabéns pela publicação.
    Axé!

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