Caruru dos Sete PoetasCARURU DOS SETE POETAS

CARURU DOS SETE POETAS

Quilombo da palavra que transformou Cachoeira em território da literatura amefricana

jlaf Mahat Alàiyé*

Há festas que acontecem.

E há festas que permanecem.

O Caruru dos Sete Poetas: Recital com gostinho de dendê pertence a essa segunda linhagem. Não apenas porque chega, em 2026, à sua 21ª edição. Mas porque atravessou o tempo sem perder aquilo que lhe tornou singular desde o início: a capacidade de reunir poesia, ancestralidade, território, infância, oralidade, livro, comida, comunidade e encantamento num mesmo corpo coletivo.

Há vinte e um anos acontece algo raro no cenário cultural brasileiro contemporâneo: a literatura volta a respirar fora das molduras institucionais que historicamente tentaram domesticá-la. Na ultima década, ele foi assentado no Largo d’Ajuda — marco zero da Heroica Cachoeira, Cidade Monumento Nacional, aonde o livro encontra o dendê e a poesia encontra a rua.

E a palavra retorna ao terreiro.

Mais do que um evento calendarizado, o Caruru tornou-se um rito anual de permanência cultural. Um quilombo da palavra onde a espetacularização da cultura não se impõe pelas luzes hegemônicas dos grandes festivais, mas pela singularidade do encontro: o luar sobre o Largo d’Ajuda, as estrelas atravessando o céu do Recôncavo, crianças correndo entre livros, tambores anunciando poesia, e um samba de roda final que devolve à noite sua dimensão ancestral.

Do Zanzibar ao Recôncavo

A história do Caruru começou antes de Cachoeira.

A primeira edição aconteceu em 2004, no Restaurante Zanzibar, na Ladeira da Misericórdia, no Centro Histórico de Salvador. Ainda como um recital poético de pequena escala, o encontro já articulava aquilo que se tornaria sua principal assinatura: literatura, oralidade, ancestralidade e convivência.

No ano seguinte, o Caruru deslocou-se para Cachoeira.

A mudança de território não foi apenas geográfica. Foi simbólica.

Em 2005, enquanto a recém-inaugurada Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) começava a redefinir o horizonte cultural e acadêmico da região, o Caruru encontrava no Recôncavo um chão definitivo para crescer. A edição daquele ano aconteceu no Terreiro Cultural — ponto de cultura localizado em frente ao Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL/UFRB) — consolidando desde cedo um diálogo entre universidade, cultura popular, literatura negra e territorialidade.

Foi ali que vozes, afetos e presenças começaram a construir aquilo que hoje o evento representa.

Entre elas, a chegada de nomes como Jocélia Fonseca e Landê Onawalê. A trilha sonora daquele momento vinha da Banda Zaccatimuana, formada por sete jovens músicos de Salvador, entre eles a cantora e pesquisadora Juliana Ribeiro, hoje uma das vozes mais importantes da música e da pesquisa sobre culturas afro-brasileiras na Bahia.

Misturando ijexá, samba, reggae e coco, a banda simbolizava exatamente aquilo que o Caruru começava a formular intuitivamente: uma experiência cultural onde a tradição não se opunha à invenção.

O Quilombo da palavra

Com o passar dos anos, o Caruru dos Sete Poetas consolidou-se como uma das experiências mais singulares da literatura brasileira contemporânea.

A expressão “Quilombo da Palavra”, hoje associada ao evento, carrega também a memória afetiva e intelectual do poeta Damário Dacruz e do Pouso da Palavra — experiências fundamentais para pensar a poesia baiana fora das lógicas centralizadoras do mercado cultural.

No Caruru, essa ideia ganha corpo no espaço público.

A literatura deixa de ocupar exclusivamente auditórios e instituições formais para voltar a dialogar com a comida compartilhada, com a oralidade, com o corpo coletivo da cidade e com os saberes preservados pelas culturas de matriz africana.

Inspirado na tradição do caruru dos sete meninos — reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado da Bahia — o recital reinventou poeticamente a estrutura ancestral da celebração popular: sete poetas reunidos em torno do alimento, da infância, da coletividade e da partilha.

Muito antes do reconhecimento institucional do patrimônio pelo Estado, o Caruru já realizava, na prática, um trabalho contínuo de salvaguarda simbólica dessa tradição afro-barroca do Recôncavo.

Não como folclorização.

Não como espetáculo exótico.

Mas como continuidade viva da memória cultural baiana.

Literatura-terreiro e circulação amefricana

Ao longo de duas décadas, o Caruru reuniu algumas das vozes mais importantes da poesia negra, latino-americana e afro-diaspórica contemporânea.

Entre elas:
José Carlos Limeira, Ele Semog, Elisa Lucinda, Ricardo Aleixo, Landê Onawalê, José Inácio Vieira de Melo, Kátia Borges, Juraci Tavares, Valdeck Almeida de Jesus, Karina Rabinovitch, Alex Simões e Negra Fya.

Da América Hispânica e do Caribe vieram nomes fundamentais como Shirley Campbell Barr, referência maior da poesia afro-costa-riquenha contemporânea, cuja trajetória internacional articula literatura, afrodescendência, feminismo negro e políticas culturais em diálogo com redes vinculadas às Nações Unidas; Gustavo Tatis Guerra, escritor e editor do jornal El Universal, de Cartagena das Índias; Pedro Blas Julio Romero, reconhecido como uma das maiores vozes negras da poesia colombiana contemporânea; e Rómulo Bustos Aguirre, considerado um dos mais importantes poetas colombianos vivos.

Da África lusófona, o recital recebeu o poeta moçambicano Pedro Pereira Lopes, ampliando os diálogos atlânticos que atravessam o projeto desde sua origem.

Mais do que convidados internacionais, essas presenças ajudaram a consolidar, em Cachoeira, uma verdadeira experiência de circulação literária amefricana. Um território de intercâmbio onde Bahia, Caribe, América Latina, África e Europa ibérica passaram a dialogar através da poesia, da oralidade e da memória comum das diásporas negras.

O tempo da permanência

Num presente marcado pela velocidade, pela lógica descartável das redes e pelo esvaziamento das experiências coletivas, o Caruru escolheu outro caminho: o tempo da semeadura.

Há tempo para preparar a terra.

Há tempo para plantar.

Há tempo para colher.

E há tempo para celebrar.

Nada no Caruru parece completamente dissociado da memória ancestral.

O quiabo cortado para o recital vem do Tabuleiro da Vitória, território quilombola ligado à história familiar de João Vanderlei de Moraes Filho. Terra onde nasceram sua bisavó, Joana Sena, e sua avó, Maria de Lourdes Sena Torres, conhecida como Dona Zizi do Avon.

O gesto parece pequeno.

Mas talvez revele a dimensão mais profunda do evento: compreender cultura não como produto, mas como continuidade de vínculos.

O alimento não é cenografia.

A ancestralidade não é discurso curatorial.

A memória não é adereço.

Tudo participa da mesma cosmopercepção.

Talvez por isso o Caruru tenha aprendido, ao longo dos anos, a existir menos como espetáculo e mais como rito de convivência.

O Largo d’Ajuda não é apenas um espaço urbano onde se instala um palco. É uma encruzilhada histórica, cultural e espiritual de Cachoeira. E determinadas experiências exigem escuta, cuidado e licença para acontecer.

No ano passado, o Caruru não aconteceu.

A pausa foi recebida pela comunidade cultural com o mesmo respeito que o evento aprendeu a cultivar diante do tempo e dos ciclos da vida. O luto vivido por sua coordenação, marcado pela partida do pai biológico de João Vanderlei de Moraes Filho e de sua mãe de santo, impôs um silêncio necessário.

E talvez isso também explique a permanência do Caruru.

Há encontros que não podem existir apenas porque o calendário determina.

Existem celebrações que dependem da possibilidade humana e espiritual de reunir as pessoas sem violentar os próprios silêncios.

Uma política de permanência cultural

Ao longo dessas duas décadas, o Caruru expandiu-se para além do recital: quermesses literárias, circulação editorial, documentários, intercâmbios internacionais, ações formativas, produção audiovisual, experiências de literatura-terreiro, articulações acadêmicas e projetos como o Quilombo Amefricano de Literaturas passaram a compor um verdadeiro ecossistema criativo do livro e da leitura no Recôncavo.

Nesse percurso, o apoio da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SECULT-BA) e das políticas públicas de descentralização cultural teve papel decisivo.

Num país historicamente concentrador dos investimentos culturais nos grandes centros urbanos, a permanência de um festival literário internacional realizado em praça pública, no Recôncavo Baiano, ajuda a demonstrar que a inovação cultural também nasce fora dos eixos hegemônicos.

Mais do que apoiar um evento, essas políticas públicas ajudaram a consolidar:

  • formação de leitores;
  • fortalecimento da bibliodiversidade;
  • circulação internacional de autores;
  • intercâmbio sul-sul;
  • preservação de patrimônio imaterial;
  • economia criativa situada;
  • e valorização das culturas de matriz africana.

O Caruru mostra que territorializar políticas culturais transforma ecossistemas inteiros.

E talvez seja justamente por isso que continue existindo.

Porque algumas experiências culturais não sobrevivem pela velocidade.

Sobrevivem porque comunidades inteiras decidem, ano após ano, continuar cuidando delas.

Como o dendê.

Como o samba.

Como a palavra.

*jlaf Mahat Alaiyè é poeta, cultivador de bonsais e pensador das cosmopercepções afro-diaspóricas do Recôncavo da Bahia.

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