UncategorizedA poesia antes do poema: Curto Circuito Literário uma trajetória cultural por fios artísticos e poéticas emancipatórias

A poesia antes do poema: Curto Circuito Literário uma trajetória cultural por fios artísticos e poéticas emancipatórias

Contemplado pelo edital Circulações Literárias da Bahia – Ano III, o poeta, editor, gestor cultural e pesquisador inicia o percurso nas feiras literárias de São José do Jacuípe e Cachoeira, em novembro. Em dezembro e janeiro, a poesia do Recôncavo segue para São Paulo, Bogotá, Cali e Cartagena das Índias; Havana permanece em articulação.

Do Recôncavo às cidades amefricanas

São José do Jacuípe e Cachoeira, na Bahia, serão as primeiras cidades a receber, em novembro, o Curto Circuito Literário: uma leitura das poéticas emancipatórias produzidas por João Vanderlei de Moraes Filho. As apresentações acontecerão no contexto das feiras literárias de São José do Jacuípe e da FLICA, em Cachoeira. A partir desse encontro inaugural com públicos baianos, a circulação avança, entre dezembro e janeiro, para São Paulo, Bogotá, Cali e Cartagena das Índias, cidades cujas apresentações estão confirmadas pelo proponente. Havana, em Cuba, integra a perspectiva de extensão internacional, ainda dependente de confirmação. Março e abril de 2027 será a vez de Santo Amaro e Paulo Afonso. A agenda detalhada será divulgada oportunamente.

O projeto foi contemplado no edital Circulações Literárias da Bahia – Ano III, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Sua proposta é reunir recital comentado, leitura acompanhada de violão, conversatórios, oficinas de criação e investigação literária, partilhas editoriais e registros audiovisuais. Não se trata de uma sequência de lançamentos, mas de um percurso de escuta e de leitura das experiências que constituem a obra e a atuação pública do poeta. Cada cidade será também interlocutora: seus repertórios, artistas, leitores e memórias entram na conversa.

Alinhavar essas cidades amefricanas significa reconhecer pontos de força de uma mesma sinergia cultural, sem apagar as singularidades de cada lugar. Na Bahia e no Recôncavo, as poéticas emancipatórias encontram chão em comunidades, escolas, terreiros, bibliotecas, festas e movimentos de criação. Atravessam o Atlântico e o continente nas memórias de povos africanos e indígenas, cujas presenças não pertencem apenas ao passado: seguem imprimindo formas de saber, criar, resistir e construir autonomia. O tempo, nessa leitura, é ancestral. Permanecer no território não é permanecer imóvel; é afirmar a capacidade coletiva de transformá-lo.

O menino da Barata Móvel

Entre os amigos “das antigas”, João Vanderlei de Moraes Filho também atende por João Barata. A intimidade do apelido guarda uma pequena tecnologia afetiva da infância: não era o menino a “barata”, mas seu patinete de rolimã, a Barata Móvel. Júnior da Barata Móvel atravessava o chão com a invenção que lhe deu nome. Mais tarde, no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a colega Mirela Gonçalves, hoje amiga-irmã, associou o Barata à metamorfose de Kafka: estar em Letras, sugeria ela, seria também transformar-se. E para os/as amigxs daquela Época do Bardelaire,o Kafka ainda persiste. A imagem acompanha um percurso que nunca deixou de se mover entre livros, escolas, terreiros, universidades e cidades.

Nascido em Salvador, em março de 1977, e filho de Cachoeira, no Recôncavo baiano, João Vanderlei é poeta, editor, gestor cultural e pesquisador. O Curto Circuito apresenta essa trajetória como um tecido histórico bordado por ações que se nutrem de poéticas emancipatórias: experiências de formação, invenção editorial, pesquisa e políticas públicas, sustentadas por vínculos comunitários e intercâmbios entre territórios.

A vida antes da página

João Vanderlei não organiza sua biografia como uma corrida para publicar um livro por ano. Para ele, a poesia é uma filosofia de vida: o poema registra uma experiência, mas não a substitui. Antes da página estão o corpo, a escuta, a convivência, a festa e o conflito. Em diálogo com a reflexão de Antonio Candido sobre a literatura e a reelaboração do mundo, o poeta sustenta que a criação não termina na escrita alfabética. Na experiência amefricana, as grafias também se inscrevem em gestos, oralidades, ritmos, memórias e modos de habitar o mundo.

O reconhecimento como autor veio em 2004, quando Pedra Retorcida recebeu o Prêmio Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos, com edição da Fundação Casa de Jorge Amado. Vieram Portuário, Em nome dos raios, Ainda o mar e Batismo à Ordem da Verdade. Naquele mesmo ano nasceu o Caruru dos Sete Poetas – Recital com Gostinho de Dendê, iniciado em Salvador e depois enraizado em Cachoeira: uma celebração em que a poesia se encontra com a comida, a música, o rito e a comunidade.

Editar e gerir também são gestos poéticos

Ao fundar a Portuário Atelier Editorial, em 2012, João Vanderlei fez da edição uma forma de aproximação entre autores e leitores. Coleções como Oju Aiyê, Passeio Interior, Orillas de América Literária e Tinta Preta promovem a circulação de produções negras, baianas e latino-americanas, com traduções, publicações coletivas e interlocuções além das fronteiras nacionais.

A mesma perspectiva atravessou sua passagem pela gestão pública. Foi secretário de Cultura e Turismo de Cachoeira entre 2008 e 2009; participou da coordenação executiva  que dirigiu o processo de elaboração do primeiro Plano Estadual do Livro e Leitura da Bahia; e dirigiu a Diretoria do Livro e da Leitura da Fundação Pedro Calmon, de 2013 a 2016. Nesse período, atuou em iniciativas de promoção da leitura, no PROLER – Programa Nacional de Promoção da Leitura e na campanha Leia e Passe Adiante.

Entre as ações que idealizou está o Concurso Escritores Escolares, criado em sua gestão e mantido pela instituição nos anos seguintes. Na terceira edição, em 2016, foram registradas 582 inscrições de 40 municípios e 15 Territórios de Identidade; em 2017, 1.170 inscritos de mais de 60 municípios e 26 territórios; em 2023, a sétima edição recebeu aproximadamente mil textos e alcançou os 27 territórios baianos. Esses indicadores se referem a edições específicas, não a um total acumulado de beneficiários. Revelam, entretanto, a continuidade de uma ação concebida para reconhecer estudantes como sujeitos da escrita.

Pesquisa, ancestralidade e travessias

Graduado em Letras Vernáculas, mestre e doutorando em Cultura e Sociedade pela UFBA, João Vanderlei pesquisa as políticas do livro e da leitura na Bahia e em Antioquia, na Colômbia. Sua investigação põe em relação políticas públicas, circulação transnacional de ideias e territorialização de práticas culturais. Também colaborou como consultor da Organização dos Estados Ibero-Americanos no processo de elaboração do segundo Plano Nacional do Livro e Leitura do Brasil entre 2024 e 2025.

A dimensão internacional de sua atuação ganhou força com o Quilombo Amefricano de Literaturas, realizado em Havana, Cartagena das Índias e Cachoeira, e com a fundação da Casa Amefricana da Poesia – Quilombo da Palavra, sediada no Recôncavo, formada por parte dos onzes artistas que fizeram parte da comitiva de intercâmbio. Os intercâmbios contribuíram para fortalecer vínculos culturais entre Cachoeira e Cartagena, reconhecidas como cidades-irmãs por legislação municipal, conforme o memorial biográfico do poeta. A conexão com Havana se deu com o assentamento da fundação da Casa Amefricana da Poesia, firmado por Sinecio Verdecia Díaz, patrono da Casa.

No Curto Circuito Literário, essas experiências não surgem como capítulos isolados de um currículo. Formam uma mesma trama: a poesia que se publica é também a poesia que se ensina, que se escuta, que se pesquisa e que se transforma em ação coletiva. O menino da Barata Móvel segue em movimento — agora levando, de território em território, a convicção de que a palavra só se completa quando encontra a vida. E de que a força ancestral das artes da palavra pode nutrir processos criativos, políticas culturais e formas de autonomia.

Curto Circuito Literário:

a palavra em movimento entre territórios amefricanos

Mais que uma circulação de apresentações poéticas, o Curto Circuito Literário propõe um encontro entre experiências de vida, criação artística e territórios que compartilham histórias de resistência, ancestralidade e reinvenção cultural. Contemplado pelo edital Circulações Literárias da Bahia – Ano III, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o projeto toma como ponto de partida a trajetória do poeta, editor, gestor cultural e pesquisador João Vanderlei de Moraes Filho para construir uma leitura pública das poéticas emancipatórias que atravessam sua produção literária e suas intervenções no campo da cultura.

A proposta articula recitais comentados, leituras acompanhadas de violão, conversatórios, oficinas de criação e investigação literária, encontros com escritores, estudantes, pesquisadores e agentes culturais, além da circulação de publicações e da produção de registros audiovisuais. Cada apresentação será concebida como uma experiência de partilha: os poemas dialogam com as circunstâncias históricas e afetivas de sua criação, enquanto o público é convidado a reconhecer as relações entre literatura, memória, território e transformação social. Não se trata de uma retrospectiva bibliográfica, mas de revelar como a poesia se manifesta também na formação de leitores, na edição, na gestão cultural e na construção de políticas públicas.

O percurso começa na Bahia, com apresentações nas feiras literárias de São José do Jacuípe e de Cachoeira, durante a FLICA. Na sequência, alcança São Paulo e atravessa as fronteiras brasileiras em direção a Bogotá, Cali e Cartagena das Índias, na Colômbia, cidades com apresentações confirmadas. Havana, em Cuba, permanece como possibilidade de ampliação do intercâmbio, ainda em articulação. A circulação também contempla outras atividades na Bahia, incluindo Santo Amaro, Paulo Afonso e Salvador. Em cada cidade, o projeto buscará estabelecer diálogos com instituições culturais, espaços educativos, iniciativas editoriais e comunidades de leitores, respeitando as particularidades dos territórios visitados.

O conceito de poéticas emancipatórias constitui o fio condutor dessa travessia. Nele, a poesia não se restringe à escrita alfabética ou à materialidade do livro: manifesta-se igualmente nas oralidades, nos cantos, nos gestos, nos conhecimentos tradicionais, nas práticas comunitárias e nas formas de organização da vida. São experiências que encontram nas matrizes africanas e indígenas elementos fundamentais para compreender a formação dos territórios amefricanos. A Bahia e, particularmente, o Recôncavo comparecem como lugares de produção de conhecimentos e sensibilidades que dialogam com outras geografias marcadas pela diáspora africana, pelas presenças indígenas e pelas lutas por autonomia cultural.

Assim, o Curto Circuito Literário pretende alinhavar cidades por meio de uma cartografia de afetos, memórias e práticas criativas. Seu propósito é fazer circular não apenas poemas, mas experiências capazes de alimentar novos processos de criação, fortalecer redes de cooperação e ampliar o debate sobre o direito à literatura e às artes da palavra. Quando a poesia reconhece a ancestralidade como presença viva, cada território deixa de ser apenas destino de uma apresentação e se transforma em espaço de encontro, reconhecimento e construção coletiva.

O Curto Circuito Literário foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.

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